1.01 – A Rainha dos Céus e da Terra

Quando cheguei há dois meses à maior cidade deste mundo, não pensei que estivesse tão avançada em relação ao resto do planeta. A história que vou contar passou-se durante a minha estadia na cidade de Babilónia, capital do Império Babilónico. Governava Nabonido, quando entrei por um dos portões da fortificação exterior da parte nova da cidade. Obviamente, entrei vestida de linho, não ia querer atrair a atenção destas pessoas com tecidos sintéticos. Andei cerca de quilómetro e meio pelo meio de ruas largas e entrei num dos portões da fortificação interior. Aí, a cidade tornou-se claustrofóbica, com ruas estreitas e sinuosas. Os blocos residenciais, apesar de baixos, ameaçavam cair por cima das pessoas, mas após atravessar um pequeno mercado onde se vendia desde fruta a escravos, dei com a Via Processional.

A Via Processional era o que se podia chamar de uma avenida, e era larga o suficiente para eu poder ver o rio Eufrates lá à frente. A Via cortava a cidade nova ao meio e depois atravessava o rio em direcção à cidade velha. Nessa parte, podia observar-se o proeminente ziggurat Esagila, erigido ao deus padroeiro da cidade: Marduk. E mesmo por trás deste, ficava o titânico Etemenenki, um edifício de nove andares. Era o edifício mais altos do mundo, do qual ninguém se lembrava da data da primeira construção. Sofreu bastante com sucessivas invasões e guerras e está em permanente reconstrução desde o reinado de Nabucodonosor II.

Quando atravessei a ponte para a parte velha, apreciei dois pilares erigidos a Ea e a Dumkina, que pareciam guardar este lado da cidade. Contra as minhas expectativas, a cidade velha parecia mais viva do que a parte nova. Mais pessoas, edifícios mais bonitos, e também luxuosos palácios revestidos a tijolo vidrado. Passei por um segmento da Via Processional onde decorria uma feira maior do que a que já tinha visto na cidade nova. As vestimentas dos transeuntes eram variadas, mas a maioria usava túnicas feitas de linho ou lã. Aparentemente, os Persas ainda não trouxeram a moda das calças para aqui. Todos olhavam para mim como uma estrangeira. Apesar de eu estar vestida de acordo com os costumes locais e da cidade ter cerca de cem mil habitantes, todos reparavam em mim, não sei porque razão.

Depois segui por uma ruela estreita e passei por uma praça onde ficava o templo de Ishtar e Anu. Em frente deste edifício, podia ver-se uma estátua argilosa de Ishtar montada num leão. A face e a estatura da deusa tinha algumas semelhanças comigo, penso que por isso é que os transeuntes reparavam. Em volta da estátua estavam parados vários sacerdotes e sacerdotisas. Algumas das sacerdotisas deste templo deviam ser as únicas prostitutas da cidade com um véu. Este facto, indica que estas mulheres tinham um certo status social especial, o véu está reservado a mulheres não escravas ou casadas. As sacerdotisas pertenciam a Ishtar, enquanto que os sacerdotes pertenciam a Anu, e eram todos tratados como se fossem os escravos sexuais ou intermediários dos deuses. Quem procurava os serviços deles, tinha de pagar bem.

Passado o templo dos prazeres nada ocultos, subi umas escadas poeirentas e dei com o palácio onde eu ia ficar instalada. As paredes do palácio de dois andares, estavam revestidas de tijolos vidrados de azul e havia uma palmeira que se elevava dos jardins centrais. Entrei no pátio e vi um escravo a apanhar um belo banho de sol, sentado no chão, perto da estátua duma serpente. Devia ter sido comprado nos reinos mais nortenhos, pois não possuía a mesma pigmentação escura tão comum por estas bandas. O calor era imenso e ele suava abundantemente, mas pareceu suar ainda mais quando viu que eu tinha um cabelo tão comprido. Devia tê-lo cortado ou apanhado para não dar tanto nas vistas. O homem levantou-se e levou-me então ao interior do palácio e disse que eu podia esperar no jardim. Do átrio, decorado com tapeçarias, podia ver-se os jardins no centro do palácio, pois os únicos obstáculos eram umas colunas cilíndricas de alabastro. Sentei-me num banco granítico, rodeado de arbustos e flores. Este era precisamente o ambiente que toda a gente gostaria de ter dentro de casa. Para o jardim estavam voltadas as janelas do segundo andar e pude observar com um sorriso, cortinas de seda.

Na realidade eu já estive aqui em Babilónia há alguns milhares de anos. Depois saí e voltei há trezentos anos, então nas mãos dos Assírios, mas tive de sair. Pois como sabem, isto é o que se pode chamar de zona de impacto. A guerra nunca deixou este lugar e pelo que me parece, nunca deixará até que qualquer traço da presença de civilização humana desapareça. Mas tive de voltar por causa duma história de que ouvi falar.

# Próximo #

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