A rapariga abraçou-me e cumprimentou-me com um beijo na face, mas nunca me tinha visto na vida para me dar tal confiança. Shadi de seu nome, não teria mais de trinta e quatro anos e possuía um cabelo comprido preto, que lhe caia como uma seta no centro das costas. De pele morena e sedosa, continuou a sorrir adoravelmente. A face dela tinha umas feições arredondadas e possuía um queixo bicudo e feminino. Com tanta beleza e alegria, ninguém diria que ela era mais uma sacerdotisa no templo de Ishtar.
“Ouvi falar da tua história Shadi. Importas-te de me contar?” Perguntei-lhe eu.
“Posso contá-la. És uma trovadora?”
“Não, chamo-me Europa e sou feiticeira. Historias como a tua interessam-me.”
“Europa… és estrangeira não és? Nunca vi ninguém com um nome como esse.”
“Sim, sou de muito longe daqui.”
Então Shadi sentou-se comigo no jardim do seu palácio e, no calor da tardinha, debaixo da sombra da palmeira, começou a contar a história de como encontrou o Viajante.
A rapariga acompanhava a caravana do pai que se dirigia a Ecbatana, a capital da Média. Nesta altura, o rei Nabonido da Babilónia tinha uma frágil aliança com Ciro de Ansham, um regente Persa. Nabonido era muitas vezes acusado de ser negligente quanto aos assuntos do Império e até pôs o filho Beltssazar a governar a capital babilónica, mas o que é certo é que a aliança com a Média abriu uma grande possibilidade para negócios. Depois de passar um sem número de campos de cultivo, a paisagem torna-se desértica. O caminho menos desértico é a Rota da Seda, onde se podiam ver, de tempos a tempos, alguns mercadores viajantes. Enquanto Shadi se sentava de lado num dos camelos, tocava a lira que o pai lhe tinha trazido do Egipto e assim, ia espantando o calor.
Certo dia, pararam num abençoado oásis com duas palmeiras e um lago. Exactamente como nas pinturas de parede. Os arbustos verdejantes cobriam uma grande extensão à volta do lago. O céu nocturno estava limpo e uma gaze fina estendia-se e distribuía incontáveis estrelas pelo firmamento. Também havia outros mercadores no oásis: um casal de chineses, três gregos desconfiados e um pequeno grupo de astrólogos persas que olhavam para um mapa e apontavam para o céu. Estavam todos confortavelmente distribuídos e nunca se misturavam. Enquanto os dois escravos hebreus preparavam o acampamento e uma fogueira, Shadi aproximou-se do lago para lavar a cara e os braços, pois estavam cobertos de areia fina.
A jovem acádia reparou então numa silhueta do outro lado do lago. Esta também se agachava para beber água, e fazia-o ruidosamente. Subitamente a cabeça levantou-se e Shadi observou que a silhueta possuía uns olhos muito estranhos. Depois de ganhar conforto à escuridão, reparou que a silhueta era de facto um animal: um leopardo negro. Como se não bastasse a surpresa de ver tal animal naquele lugar, o bicho sacou de um truque ainda mais impressionante, pois esfumou-se diante dos olhos da rapariga. Ela piscou os olhos várias vezes para tentar compreender o que tinha acontecido, mas de facto o animal tornou-se por momentos numa coluna de fumo etéreo e desapareceu sem deixar rasto.
“Essa foi a primeira vez que o viste?”
“Sim. Mas ainda não tinha a certeza do que tinha visto.”
Ignorando o animal, Shadi continuou a viagem no dia seguinte, mas aconteceu uma tragédia. A caravana foi atacada na estrada por um bando de ladrões. No ataque, eles tiraram à jovem o único elemento da família que ela conhecia. Os escravos debateram-se com audácia, mas não foi o suficiente para impedir o golpe mortal no chefe de família. Em consequência do incidente, Shadi abortou a viagem e voltou para trás. Muito dinheiro e bens foram roubados, deixando Shadi com problemas financeiros. Na viagem de volta, chorosa e de coração partido, ela voltou a ver a criatura no oásis.
A curiosidade tomou conta dos seus pensamentos e fê-la enxaguar as lágrimas. Separou-se do seu acampamento e contornou o lago para se aproximar da besta negra. Pela descrição dela, posso assegurar que o que ela viu foi um leopardo de pigmentação negra, geralmente chamado de pantera negra. Não é de todo inacreditável a presença dum leopardo por aqui, no entanto não deixa de ser um acontecimento raro e improvável. Assim que a pantera se apercebeu da presença de Shadi escondida nos arbustos, rosnou-lhe e preparou-se para combater.
“Afasta-te demónio de pé!” Disse a pantera com uma voz profunda e limpa.
“Não te quero fazer mal…” Respondeu Shadi.
“Não confio em humanos. Fui morto por um caçador. Vós não tendes respeito, por isso, não merecem o meu respeito.”
Assim que acabou de falar, a pantera lançou-se sobre Shadi e atirou-a ao chão. Ela debateu-se com os dois braços e agarrando as mandíbulas da besta, manteve a bocarra longe do seu pescoço. Os caninos longos brilhavam ao luar e estavam prontos a executar uma vingança cega.
“Nem todos os humanos são iguais! Eu tenho respeito por ti.”
A pantera afastou-se para o lado com um salto.
“Desculpa. Apenas tenho sede de vingança. Já matei alguns humanos, mas nenhum deles era o meu caçador, pois esse carregava um arco prateado.”
“Eu também tenho sede de vingança.” Respondeu Shadi. “O meu pai morreu às mãos de uns vadios e agora não possuo qualquer meio de sustento. As minhas poupanças não durarão mais que um mês.”
“Não posso fazer nada quanto ao teu problema, nem posso dizer que sinto compaixão, pois não me resta nenhuma.”
“Qual o teu nome? És um enviado de Ishtar?”
Ainda enquanto a rapariga fazia as perguntas, o pelo do animal começou a fumegar com um vapor espesso e negro. Rapidamente todo o corpo do Viajante se transformou em fumo e depois em nada. Uma fragrância forte a incenso ficou por mais alguns momentos, mas também essa acabou por desaparecer e não foi deixado qualquer rasto ou sinal do Viajante. Shadi imaginou que a fabulosa criatura era um enviado de Ishtar, para lhe dar um sinal quanto ao que havia de fazer em face da morte do pai.
[...] # Próximo # Possibly related posts: (automatically generated)3.07 – Só nos teus sonhosNerdeando na neveCity Under SiegeHablando Portuñol [...]