Em consequência do trágico acontecimento, Shadi optou por se alistar no templo de Ishtar e tornou-se sacerdotisa. Com a sua beleza sedutora e um pouco de sorte à mistura, conseguiu passar nas provas de admissão do Alto Sacerdote de Ishtar. Na realidade ela não tinha muitas opções, ou tornava-se escrava ou prostituta. Dentro da hipótese de se tornar prostituta, ou fazia-o por conta própria, ou tentava a sua sorte no templo, que foi o que ela fez. Com o ordenado chorudo que ganhava, conseguiu recuperar parte da fortuna do pai. A Ishtar babilónica já não era a mesma Innana suméria de há alguns milhares de anos. Ishtar é bem mais agressiva e apaixonada. Eu conseguia ver agora essas qualidades da Estrela da Madrugada em Shadi. Ela ganhou a admiração dos outros sacerdotes, dos adoradores de Ishtar e da população em geral. Era uma mulher que vivia com toda a luxúria que a imaginação concebia, e gostava disso.
Mas como eu previ, status e luxúria não é tudo no mundo. Ela começou a desejar outra coisa. Nos seis meses que se seguiram, tornou-se difícil para Shadi encontrar um amigo que não estivesse interessado no seu corpo. A vida era monótona, ela era uma mulher de objectivos nobres, não era feliz com uma vida simples. Então certo dia, ela decidiu encontrar-se com o Viajante. Um camelo, duas bolsas de água, a sua lira e um punhal, era o suficiente para prepará-la para a viagem até ao oásis. No primeiro dia do mês de Addaru do ano de 193 AN[1], Shadi chegou ao oásis debaixo de uma lua crescente fina e grande, apontada para cima.
O Viajante estava sentado na areia fria como a majestade de um reino invisível. O seu perfil estava irrealmente iluminado pela lua. Essa ténue linha que quebrava sensualmente a escuridão, possuía as curvas lombares que identificariam qualquer felino, grande ou pequeno, em qualquer parte do mundo.
“Eu sabia que ele não era um demónio.” Contou-me Shadi.
“Era como se conseguisses ver o que ia no coração dele, certo?” Confirmei.
“Exactamente. Quando ele me atacou da primeira vez, era apenas uma raiva animal, mas na sua essência, eu sabia que ele não era uma besta qualquer.”
Shadi aproximou-se do Viajante, enquanto este observava o horizonte com uma tristeza solitária. Não havia mais ninguém no oásis, nem os astrónomos persas, mas corria uma brisa fresca.
“Meu belo animal… vim procurar…”
“Eu sei o que vieste procurar.” Respondeu o Viajante com uma voz calma, deixando Shadi sem saber se estava a ser árido ou compassivo. “Eu disse que não te podia ajudar, mas a vossa raça tem dificuldades em perceber as coisas à primeira.”
“E se eu te ajudar? O que acontece?”
O animal olhou então para ela e pensou por um pouco. Rodeou-a e sentou-se mais perto. “O que desejas concretamente em troca dessa ajuda que me queres prestar?”
“Quero um amigo. Um amigo em quem eu possa confiar, alguém que não me abandone nos momentos mais difíceis da minha vida e que me aceite como sou.”
“E o que me dás em troca?”
“Bem… sei de um lugar onde se reúnem os melhores caçadores do reino. Poderás encontrar o teu caçador lá. Harran, a cidade de Sin, o deus lua.”
“Então serei tudo aquilo de que necessitas se me acompanhares até Harran.”
“Preciso de passar pelo meu palácio para reunir mantimentos.”
“Não vai ser necessário, confia em mim. É melhor partirmos já, temos uma longa jornada pela frente.”
Então Shadi e o Viajante partiram para as terras do norte, com destino a Harran. Previ que Shadi procurasse o Viajante, mas a rapariga surpreendeu-me ao aceitar viajar com ele. Basicamente, deixou tudo para trás.
[1] 193 AN = 554 AEC; Anno Nabonassari é um calendário reorganizado por Claudius Ptolomeu quando este teve acesso a registos astronómicos babilónicos que começaram com o reinado de Nabonassar em 747 AEC.
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