A noite caiu na cidade de Babilónia à medida que a jovem me contava a história do Viajante. Shadi providenciou-me um quarto onde eu pudesse dormir confortavelmente. Tratou-me como uma rainha, pois a janela do meu quarto tinha vista directa para o centro da cidade. Perto do Etemenenki, ou da Torre de Babel, como é conhecido no Ocidente, havia um ajuntamento de pessoas. Perguntei a Shadi o que se passava e ela contou-me que o Rei Nabonido vedou a entrada do Etemenenki e do Esagila, o templo de Marduk. Só o facto do Rei ter restaurado o templo de Sin em Harran, fez com que os sacerdotes de Marduk, aqui em Babilónia, começassem a mostrar um certo desconforto pelas preferências teológicas do rei. Mas proibir o acesso ao próprio templo de Marduk era cruel. A polícia não só impedia a entrada no templo como condenava à morte qualquer adoração do deus padroeiro da capital. Cá para mim, Nabonido estava a pedir uma guerra civil. Fazer braços de ferro entre dois deuses não é inteligente, especialmente dois com tantos seguidores. Mas a tensão já durava há mais de catorze anos e deixei de me preocupar, por isso fui dormir. No dia seguinte, passeei um pouco pela manhã, mas depois do almoço, voltamo-nos a sentar num dos bancos do jardim central. Desta vez Shadi vinha acompanhada de dois escravos, um com um guarda-sol de linho e outro com um leque comprido, feito de penas de flamingo presas numa cana.
Ao continuar a história, a jovem contou-me que iniciou a viagem para Harran sem qualquer preparação. Seguiu para noroeste acompanhada por um dos braços do rio Eufrates e pelos intermináveis campos verdes do crescente fértil. O Viajante seguia ao lado dela, determinado a chegar ao destino. Escusado será dizer que os poucos transeuntes que passavam, afastavam-se assim que viam a pantera.
Shadi não abandonou o camelo, pois providenciava bom transporte e ainda carregava as bolsas de água. A partir de certo momento, pareceu que a civilização deixou de existir. A vegetação tornou-se rasteira e selvagem, já não se avistava tantos animais, mas a estrada marcada pelos trilhos de carroças e camelos permanecia. Já não havia grandes muralhas no horizonte nem campos cultivados nem engenhosos sistemas de irrigação. Apenas o zumbido duma abelha e o remexer ocasional dos arbustos. Na primeira noite, acamparam perto do rio, mas de modo a que não ficassem ensopados nas terras pantanosas. Shadi não tinha um cobertor para se proteger do frio laminado das noites babilónicas, mas o Viajante sugeriu uma solução.
“Se te deitares ao meu lado, o meu pêlo aquecer-te-á e não passarás frio.”
Então Shadi enrolou-se ao lado do Viajante como se fosse também da família felina, espantando o frio e adormecendo pacificamente.
Nos dias que se seguiram, a alimentação deles baseou-se em pequenos peixes do Eufrates. O Viajante atravessava a zona pantanosa até submergir as patas na água e caçava os peixes que podia. Da minha parte, não só achei estranho um felino caçar peixes no Eufrates, como achei estranho ele viajar com a rapariga e ser humilde, quando demonstrara que não nutria qualquer amor à espécie humana. Este era realmente diferente.
Em poucos dias chegaram a um delta, onde o rio se unia para formar um sulco mais profundo e mais largo. Shadi atravessou um dos braços do rio agarrada às costas do Viajante, que nadava exemplarmente. De seguida subiram a encosta à direita do rio. Do topo, via-se uma extensa savana cravada de arbustos amarelados e queimados pelo sol. O Eufrates agora já não estava ao nível deles, mas vinha de um desfiladeiro que só desaparecia no horizonte. Ocasionalmente, desciam em zonas menos inclinadas até ao rio para beber água e apanhar peixe. O Viajante tinha dito para poupar a água que Shadi trazia nas bolsas, pois iam precisar do líquido precioso mais tarde.
Inesperadamente, encontraram um acampamento montado no meio da savana. Parecia abandonado, mas o sol raiava a pique e podiam estar todos dentro das tendas. O Viajante esfumou-se, pois não precisava de gerar pânico, e Shadi entrou na tenda central.
“O que fazes aqui jovem acádia?” Perguntou o homem que habitava a tenda.
“Estou de passagem para Harran. Vi o acampamento e fiquei curiosa.”
“Nós também vamos para Harran. Por acaso não irás também pela mesma causa que nós?”
“Não sei que causa é essa.”
“O rei Nabonido vai fazer as celebrações do ano novo em Harran a partir deste ano. Não podemos pactuar com isto. Ele trata Marduk como se fosse um mortal qualquer e não como o rei dos céus. Marduk encarregou-nos de fazer a verdadeira justiça, por isso vai haver uma grande matança.”
Então Shadi ouviu a voz do Viajante entrar pelo seu ouvido e dizer que não precisavam daqueles homens para continuar a viagem. Por isso, Shadi, despediu-se, saiu da tenda e fez-se de novo à estrada. A pantera materializou-se, condensando as partículas de fumo negro ao lado da rapariga.
“Estes são os iluminados que envergonham a vossa espécie.” Começou o Viajante na sua habitual voz penetrante. “Movidos como peças de um qualquer xadrez persa, debatem-se por causas invisíveis. O próprio rei é suficientemente cego para ser religiosamente intolerante. Os homens servem a sua fé em vez de usarem a fé para os servir. Primeiro domesticam-na e depois tornam-se escravos dela.”
Perante esta crítica dura, Shadi não conseguiu construir rapidamente um argumento que defendesse a sua espécie.