Ao anoitecer, já Shamash descia dos céus e Sin subia do outro lado do firmamento, Shadi e o Viajante atravessavam um campo arenoso com pouca vegetação. No horizonte, ainda quente, estavam postadas duas bestas. Não foi até quando se chegaram suficientemente perto que perceberam que animais eram. Dois Chacais de pelo dourado e olhos dominantes. Um deles era do dobro do tamanho do Viajante e o outro era pequeno e jovem. O grande Chacal provavelmente era um chacal fêmea esfomeado. Num lugar como aquele, a carne era escassa. Isso era o suficiente para transformar qualquer carnívoro numa máquina de guerra.
Mas havia uma certa honra selvagem naqueles chacais que não se moveram até que Shadi e o Viajante pararam a dez passos deles. Estavam frente a frente e mesmo assim, os chacais pareciam estátuas douradas. Quando uma brisa se atravessava entre eles, o pelo dos animais ondulava e partículas douradas eram levadas pelo vento. Shadi reparou que os animais estavam no centro dum círculo desenhado na terra e ela e a pantera estavam a um passo de entrar no círculo.
“Eu trato disto.” Disse o Viajante.
“Não podemos contornar os chacais e evitá-los?” Perguntou Shadi.
“Uma necessidade como a fome é o que dita as regras aqui, não a honra que o Chacal possa ter.” Disse o Viajante dando um passo e entrando no círculo.
O pequeno chacal afastou-se e a sua mãe ficou subitamente agressiva. O felídeo e o grande canídeo fitaram-se por momentos. Shadi limitou-se a tirar o punhal que trazia guardado, mas logo sentiu uma certa compaixão pelo Chacal. Ela pensou em caçar pequenos roedores que geralmente viviam nas imediações do rio e oferecê-los ao animal, mas o Viajante já se preparava para investir. Num piscar de olhos, o combate começou. Cruzavam-se grandes caninos e grandes lâminas que saíam das patas de ambos, mas dada a natureza etérea do Viajante, o Chacal era incapaz de lhe fazer um arranhão sequer. Com uma agressividade voraz, o combate terminou tão depressa como começou e a cria dourada e felpuda foi obrigada a fugir do local de combate e a abandonar a progenitora.
“Vamos.” Disse o Viajante com rispidez.
Shadi seguiu viagem, ainda horrorizada com a violência que o seu amigo mostrara. Sem olhar duas vezes para trás, ele deixou o Chacal ali, deitada e moribunda.
“É essa a tua suposta superioridade moral em relação aos humanos? Matar a Chacal não foi uma necessidade nem uma vingança. Se não foi por pura maldade, então porque te tornaste numa besta tão feroz dentro do corpo de um animal tão belo?”
“A Chacal atacaria mesmo fora do círculo. Ficará sempre a dúvida na tua mente porque não o viste sair e atacar primeiro. Mas garanto-te que a inevitabilidade do nosso combate foi produzida primeiro pelo combate dos nossos desejos, no interior dos nossos corações. Ele necessitava de comida, nós necessitávamos de continuar o nosso caminho. O ponto em que devemos ceder às necessidades alheias, não é uma resposta exacta ao alcance da tua espécie.”
“Tu também não a viste sair e atacar em primeiro lugar, também não sabias se ela nos atacaria fora do círculo.”
“Quantas vezes enterraste a tua honra e cedeste aos teus desejos mais primários? Dezenas? Centenas? E mesmo que escolhesses a honra, não ficam ainda os desejos no teu íntimo, à espera de serem libertos? A Chacal atacaria porque a besta dentro dela assim a comandava.”
“Era assim que gostavas que os humanos fossem? Como animais.”
“Existe mais alguma maneira de ser? A tua deusa percebe o que eu quero dizer melhor do que tu.”
Pequenas cidades apareciam e desapareciam no horizonte, tanto deste, como daquele lado do rio. Os mantimentos em cima do camelo cresciam de mês para mês, pois os mercadores que passavam, com medo da pantera, até ofereciam comida e dinheiro para não serem atacados. Apesar de longa, acabou por tornar se fácil fazer a viagem. Certo dia, Shadi até conseguiu um quarto no conforto de uma albergaria, numa pequena cidade de praças adornadas com postes e mosaicos assírios.
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