Quando Shadi acabou de me contar a história até àquele ponto, eu ainda estava pensativa sobre a discussão incompleta com o Viajante. Nesse dia, saí para um passeio nocturno nas ruas serpenteantes. A noite estava quente e escura. Os candeeiros de vela conferiam à cidade a iluminação suficiente para se ver por onde andava. O comprimento do meu cabelo ainda fazia virar as cabeças de alguns transeuntes, até que parei debaixo de uma arcada escura. Estive na escuridão por alguns momentos e olhei para as miríades de estrelas no céu. Fixei os olhos num grupo de estrelas a que os escravos hebreus chamam de Kimah e os acádios chamam de Sebitti[1]. É sempre giro ver a nossa casa dum sítio tão longínquo e amado como a Terra.
Ao sorrir para o céu, reparei que um homem que passava do outro lado da rua, parou e observou-me fixamente. Rapidamente mais três homens saltaram das esquinas com punhais e rodearam-me.
“Passa para cá todo o dinheiro que tens.” Disse um dos homens.
“Não tenho nenhum…” Estive para lhes dar um discurso sobre o quão imprudente seria atacar-me, mas não me preocupei, pois não iam dar-me atenção.
“Claro que tens. Se não nos deres o dinheiro…”
Dei-lhes um tratamento de pancada simples. Um soco de palma aberta a cada um e foram todos parar ao chão antes de perceberem o que se estava a passar. Não exagerei na força, mas dois deles levantaram-se, pouco dissuadidos com os meus golpes. Fiz duas faíscas passar pelos meus braços e estalar nas pontas dos dedos, iluminando as faces aterrorizadas dos assaltantes. Foi aí que perceberam que eu não era nem deste, nem do próximo mundo. Os homens têm medo do que não conhecem, e estes não eram excepção. Fugiram com todo o fôlego que ainda lhes restava.
Mas a discussão da pantera não me saiu da cabeça. A discussão da liberdade dos nossos desejos e da liberdade dos desejos dos outros era mais do que eterna. Até que ponto é que eu, como ser individual, me sobreponho à colectividade em que me insiro? E vice-versa. Esta é a pergunta certa para estas criaturas. Certamente a pantera começou a despertar alguns pensamentos em Shadi sobre a vida dela. Tudo o que ela me contou provava que eu estava perante uma das criaturas que eu queria capturar e estudar. Seria um avanço para a ciência Pleadeana se eu o conseguisse fazer.
No dia seguinte, Shadi continuou a história. “À medida que continuava a viagem, lembrei-me da minha antiga vida no templo de Ishtar.” Disse-me Shadi. “Eu tinha saudades. Tinha saudades do amor, das sensações e do calor dos corpos. Ali, eu era a deusa, a Rainha dos Céus e da Terra. A Estrela da Madrugada e do Anoitecer. Paixão e Prazer.”
Ela continuou a contar-me como chegou a altura em que eles se tiveram de separar das margens do Eufrates, antes de chegarem a Carquemish. Partiram directamente para norte, mesmo pelo meio da savana queimada. Tinham passado quase um ano em viagem e agora estavam perto. As montanhas nortenhas cravavam o horizonte e recortavam o céu a qualquer hora do dia. Cansada, a rapariga sentou-se em cima do camelo e entreteu-se a tocar a lira. O Viajante caminhava, destemido como sempre, sem mostrar sinais de cansaço.
Quando caiu a noite, acamparam junto a uma árvore solitária no meio da savana. Shadi sentou-se confortavelmente junto ao tronco e o Viajante espreguiçou-se e afiou as unhas na madeira escura. A manutenção das unhas dele fizeram saltar lascas e por momentos, Shadi sentiu o tronco mexer. Ao princípio ela pensou que o Viajante estava a deitar a árvore abaixo, mas quando as raízes começaram a sair da terra por vontade própria, afastou-se com medo. A árvore tornou-se numa criatura mágica, os ramos em braços e as raízes em pernas rastejantes que chegavam a todo lado. A pantera contra atacou bravamente os ramos que a tentava chicotear.
“Não podes vencê-la! Vamos fugir!” Gritou Shadi.
Mas um ramo forte conseguiu agarrar o Viajante pelo pescoço. Havia algo de muito terrível naquela árvore, pois não só agarrava o Viajante, como agarrava a sua própria alma. Ele contorcia-se, mas não conseguia destruir o ramo com as garras.
“Desmaterializa-te.” Sugiriu a rapariga, pegando no seu punhal.
“Não consigo.”
A pantera fumegava, mas não conseguia desaparecer nem sair das garras mágicas da árvore. Foi nesse momento que Shadi tomou uma acção. Armada apenas com o punhal, cortava e afastava os ramos que vinham ter com ela. Enquanto a rapariga demorava a chegar ao amigo, a árvore começou a enterrar-se lentamente. As raízes perfuraram a terra com facilidade e o tronco começava a afundar-se como se estivesse em cima de areias movediças. Se Shadi não chegasse a tempo, a árvore maldita iria levar o Viajante para dentro da terra. Destemida e aguentando as sucessivas chicotadas e tentativas de amarro da árvore, cravou o punhal no ramo que segurava a pantera e partiu-o ao meio.
Afastaram-se enquanto observavam a árvore a enterrar-se sozinha até desaparecer na terra. Shadi e o Viajante acamparam noutro lugar, deixando para trás os membros cortados e mortos da árvore estranha. A rapariga tinha ficado com cortes compridos na pele e o sangue escorria-lhe das feridas, ensanguentando a roupa rasgada. Estava estourada, mas conseguiu salvar o seu precioso amigo. O melhor que o Viajante fez para agradecer foi lamber os cortes com a sua língua áspera. No dia seguinte, Shadi já estava completamente recuperada e pronta para continuar a viagem. Almoçaram javali cozinhado numa fogueira. Os javalis são raros por estes lados, mas eles existem e os mercadores às vezes trazem as carcaças bem conservadas. Shadi e o Viajante não atacavam ninguém, mas os mercadores com medo insistiam em oferecer coisas, e obviamente, a rapariga e a pantera não recusavam. Bem alimentados, levantaram-se e seguiram para norte.
[1] Sebitti eram sete poderosos guerreiros. Estas estrelas são actualmente identificadas como as Plêiades.
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