As montanhas do norte estavam mais perto e já se via a grande cidade de Harran erigida numa encosta. Depois daquela cordilheira montanhosa estava o Reino de Lydia. Foi na primeira noite de Nisannu de 194 AN que eles chegaram aos portões de Harran. A cidade estava viva e em festa, pois era uma noite de ano novo bastante agradável. As árvores já tinham começado a florescer e em pouco tempo começariam a dar frutos e os pássaros chilreavam desvairados durante o dia. No momento em que eles chegaram à cidade já não se via a lua, mas tinha estado num quarto crescente fino e belo, tal como o que Shadi viu no primeiro dia de viagem. O Viajante desmaterializou-se para não atrair as atenções das pessoas e Shadi pagou um quarto numa estalagem. No dia seguinte, iriam à procura do caçador do arco prateado.
Eu já sabia o que eles iriam encontrar, ou pelo menos em parte. Não podia ser um caçador qualquer, tinha de ser alguém especial. Por outro lado, era dia de ano novo e os festejos duravam onze dias. Se bem me lembro, havia um grupo de homens que vinham para Harran para atacar o rei e eles já podiam ter chegado à cidade. O rei Nabonido acreditava que Sin era um deus melhor e mais nobre do que Marduk, esquecendo-se que essas supostas divindades eram apenas símbolos e nada mais do que isso. Eram figuras feitas de barro, mas principalmente, figuras feitas da imaginação dos humanos. Eu reconheço a importância dos deuses na vida dos humanos, mas frequentemente esquecem-se que eles não existem realmente. Se esta gente percebesse que a importância da vida das outras pessoas era maior do que a importância que se concedia a um deus destes, talvez se evitassem guerras como esta.
Na manhã seguinte, Shadi levantou-se da cama, vestiu-se e partiu à procura do caçador. O Viajante decidiu separar-se dela e procurar em lugares diferentes enquanto deslizava pelo ar, desmaterializado. Rapidamente cobririam toda a cidade e descobririam o caçador. Harran era uma cidade inclinada, por isso a maioria das ruas acompanhavam a encosta da montanha e subiam até ao topo onde estava construída uma torre que parecia um farol. Harran também tinha uma Via Processional, mais estreita que a de Babilónia, mas que em vez de culminar num templo de Ishtar fora da cidade, culminava no templo restaurado de Sin, bem no centro. No momento em que Shadi atravessou a Via Processional, havia uma multidão à espera duma cerimónia que se costumava fazer na cidade de Babilónia. Em procissão ia o rei e a Alta Sacerdotisa do templo de Ishtar da cidade de Uruk. Se Shadi continuasse a trabalhar no templo durante aquele ano, podia ter sido ela naquela cerimónia. Este casamento sagrado simbolizava o casamento entre Ishtar e Tammuz e anunciava o renascimento da natureza e da vida. Apesar do belo momento, a procissão culminaria pela primeira vez na história do império, num templo de Sin. Rapidamente, alguns homens começaram a sair do meio da multidão e dirigiam-se ao rei para o matar. A polícia local desembainhou as espadas e a bela cerimónia transformou-se numa batalha campal, rudemente dividida em apoiantes de Sin e apoiantes de Marduk. Os sons alegres da multidão transformaram-se em gritos de desespero. Estes deuses também nunca tinham sido rivais em panteão algum, mas o Rei Nabonido encarregou-se de os tornar rivais.
Shadi depressa saiu do meio da confusão e subiu uma rua a pique. A torre que parecia um farol apanhou a atenção dela e continuou a subir até chegar à sua entrada. O portão estava aberto e lá dentro observou uma sala bem decorada. Estavam um rapaz e uma rapariga, sensivelmente da idade de Shadi, sentados a conversar com algum nervosismo nas suas faces.
“Bom dia. Posso entrar? Não quero ser apanhada na confusão lá fora.”
“Com certeza. Bem vinda à casa de Arash.” Disse a rapariga. “Eu sou a Parisa e o meu irmão é o Siavush.”
“Muito prazer. Sou a Shadi. Eu ando à procura dum caçador que carrega um arco prateado. Sabem onde posso encontrá-lo?”
“O caçador que procuras é nosso tio, Arash. Ele está no segundo piso, na sala dos troféus.” Respondeu Siavush, manifestamente atraído pela beleza de Shadi.
Shadi subiu à sala dos troféus através dumas escadas em espiral e viu o homem observando o exterior por uma das janelas rectangulares. O sol matinal incidia sobre ele e as vestes compridas reflectiam a luz branca com esplendor. Na sua pose, o caçador denunciava um heroísmo incomum. Mantinha as mãos atrás das costas e uma expressão melancólica. Tanto o cabelo como a barba estavam intrincadamente arranjados no melhor estilo babilónico. Parecia preparado para a cerimónia, mas o combate lá em baixo preocupava-o mais do que o pó que havia no ar e que se grudava às suas vestes. A sala estava decorada com as cabeças dos animais que matava e entre elas, estava a cabeça do corpo material do Viajante. No centro da sala estava um reluzente arco metálico e prateado que continha pequenos desenhos e motivos esculpidos. Não devia haver outro arco como aquele em todo o mundo conhecido. Apenas uma grande sabedoria de artesanato militar a podia ter feito. Ao lado estava uma aljava de couro, carregada de flechas.
“Finalmente chegaste.” Disse o homem, olhando vagamente para Shadi de alto a baixo.
“Estava à minha espera?”
“Estava.”
Shadi deu alguns passos na direcção do homem e o piso de madeira rangia baixinho. Arash aproximou-se calmamente do arco e pôs a aljava às costas. Uma observação cuidadosa fez Shadi reparar que o caçador tinha umas tatuagens reluzentes nas costas das mãos. Por momentos não distinguiu se as tatuagens tinham luz própria ou se era resultado da reflexão da luz solar.
“Toda a minha magia não conseguiu parar o Viajante…” Disse ele tristonho.
“O que quer dizer com isso?”
“Caso não tenhas reparado jovem, os Chacais não desenham círculos no chão e as árvores não roubam a alma das criaturas. Invoquei-os para dissuadir o Viajante de chegar até mim, mas agora é tarde de mais. Talvez ele tenha direito à vingança” Disse Arash olhando para o troféu da pantera negra na parede. “Mas se eu morrer, os meus sobrinhos ficarão sem sustento e sem casa. A minha mulher ficaria desgostosa para o resto da vida. Que tipo de futuro teriam os meus filhos se eu morresse agora?”
“Sempre posso dizer-lhe que nunca encontrei o senhor…” Respondeu Shadi.
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