O Viajante materializou-se ao lado de Shadi, rosnando com subtileza e pronto para atacar, caso Arash fizesse um movimento brusco. O assombro na face do caçador era visível. A rapariga abraçou a pantera, ainda enquanto o fumo negro se juntava para formar o pelo sedoso, e falou-lhe perto da orelha que se inclinava para trás de raiva.
“Não me parece haver maldade neste homem. Vais estragar a felicidade duma família por causa duma vingança pessoal?”
“Ele matou por desporto. Não vês os troféus na parede? Pois, este homem merece… morrer.” Respondeu o Viajante inseguro.
“Não o faças. Pois também ficarei entristecida se o meu amigo, que me aqueceu, me deu de comer, que me protegeu e me acompanhou nos bons e maus momentos, cedesse rapidamente a esta cólera irracional.”
“Pequena Shadi, agrada-te que eu afinal não execute este homem?”
“Agrada muito.”
A pantera hesitou num momento que pareceu muito longo para o caçador, mas a besta finalmente respondeu.
“Se é realmente assim, então cederei ao teu desejo. Pois acompanhaste-me mesmo sabendo que eu era uma besta assassina, salvaste-me a vida e mostraste-me o lugar onde morava o caçador.” A raiva da pantera negra dissipou-se lentamente e sentou-se na sua habitual pose majestosa. “Não te pude dar o amor completo a que tens direito, talvez o encontres nesta casa. Este é o lugar em que os desejos combatem e se confundem. Mas para eu aceitar o teu pedido, este homem tem de fazer uma última coisa por mim…”
Arash acenou afirmativamente em silêncio e pegou no arco. De facto, não havia outro arco como aquele em todo o mundo conhecido. Nenhum Rei da Terra possuía objecto tão valioso e tão único. Mas esse era o preço da sua felicidade e dos seus. Com uma força sobre-humana, o caçador partiu o seu arco prateado ao meio e atirou-o ao chão. Deixou cair também a aljava e agradeceu a misericórdia do Viajante.
“Este é o Oásis.” Disse finalmente a pantera enquanto se desmaterializava.
Lentamente o fumo negro se tornava em branco e desaparecia no ar, tal e qual como vapor de água. Um forte perfume de incenso ficou no ar por mais alguns momentos e então Shadi e Arash saíram da sala dos troféus.
Passaram-se catorze anos. Estamos agora em 208 AN e Shadi afinal não deixou de trabalhar no templo de Ishtar, apenas modificou a sua atitude. Já não se anulava tanto a si mesma em favor da deusa. À medida que ela terminava a história, não pude deixar de notar o sorriso que ela tinha na face.
Não era desta vez que eu ia ter a oportunidade de estudar de perto um espécime como o Viajante, porque Shadi, inadvertidamente conseguiu libertá-lo daquilo que o prendia ao plano físico de existência. Talvez mais tarde, venha a ter sorte e encontre um igualmente nobre e majestoso. Despedi-me dela. Ainda lhe prometi que ia compor uma canção em honra dela e do Viajante. Avisei-a também para ter cuidado porque Ciro da Pérsia se preparava para tomar Babilónia. Ela disse que não havia problema, Babilónia estava preparada para ser tomada pelo Império Persa e de facto era verdade. Nabonido tinha conseguido perder toda a confiança dos acádios, de modo a que a capital preferia ser Persa.
Então parti imediatamente para Harran e falei com Arash. De certeza que não envelheceu naqueles catorze anos e eu tinha razão. Arash era um meio humano, meio Pleadeano. O pai dele tinha sido um Pleadeano desconhecido, tal como Gilgamesh há alguns milhares de anos. Ele pareceu reconhecer a minha assinatura energética.
“És Pleadeana?” Perguntou
“Sim.”
“Procurei-vos por toda a parte. O que são vocês? Enviados dos deuses?”
“Nós somos os deuses, Arash. Tens sangue Pleadeano a correr nas tuas veias e talvez não saibas, mas és praticamente imortal.”
“Já me dei conta de tal.”
“Também és infértil. Todos os híbridos são inférteis. São duas características que vocês geralmente odeiam, mas achei que tinhas o direito de saber.”
“Não há nada que eu possa fazer então?”
“Podes aceitar-te.”
“Leva-me para as Plêiades.”
“Infelizmente não posso fazer isso. É proibido ter híbridos lá.”
“Pois…”
“Mas sei que aprendeste muitas coisas que apenas os Pleadeanos compreendem. Pode até não haver outro meio-Pleadeano tão forte como tu. Penso que és especial nesse sentido.”
“Compreendo.” Respondeu com uma lágrima no canto do olho.
“Preciso de saber uma coisa antes de eu ir embora. Sabes de alguma criatura semelhante à do Viajante que esteve com Shadi aqui há catorze anos?”
“Aquele?” Perguntou Arash ao apontar para o troféu. “Nunca mais o vi.”
“Muito bem. Chegou a altura de nos despedirmos. Adeus Arash.”
“Adeus senhora. Obrigado por esclarecer essas coisas.”
“De nada.”
FIM

[...] # Próximo # [...]