No princípio havia o som. O som das almas partidas, de esperanças cortadas e queimadas. Os gritos lentos e dolorosos anunciavam a memória dum mundo outrora próspero. Seria mais fácil para os sobreviventes que não tivessem visto o mundo anterior. Não saberiam o que perderam. O mais velho da matilha, o Marco, dava as passadas mais rápidas que conseguia. Os pés dele afundavam-se na neve ácida e felizmente, a lanterna não dava luz suficiente para se observar a cidade doente. O som da respiração ofegante e das passadas abafavam os gritos longínquos. Virou-se e ladrou algo para o resto da matilha se despachar. Sorriu assim que deitou os olhos em cima dum supermercado podre e meio destruído.
Já tinha sido pilhado vezes sem conta e aquilo que não tinha sido roubado, devia estar a ser guardado com unhas e dentes por um segurança desgraçado. A matilha liderada por Marco assaltou o que restava do supermercado, pregaram um tiro no segurança e roubaram os contentores de mantimentos que conseguiram.
- Vamos, depressa! O tempo vai mudar. – avisou Raquel à luz amena da lanterna.
E assim aconteceu. Começou a nevar! O pânico distribuiu-se pela matilha e nem Marco tinha razões para desafiar os flocos amarelados. Deixaram os contentores mais pesados e saíram a correr do supermercado. Junto com a neve, chegou um cheiro ácido e tóxico. Quanto mais tempo estivessem à superfície, mais probabilidades de ganharem queimaduras. O geiger counter às vezes assinalava a presença de radiação.
- Em quanto está a bater o counter? – perguntou Marco com caixas .
- 200 miliGrays. – respondeu o Daniel ao olhar para o mostrador embebido no fato.
- Que raio. Responde-me numa unidade que eu perceba.
- Cerca de 0,2 roentgens. Não é muito grave.
Apenas os ricos conseguiam viver à superfície, pois podiam comprar materiais para fazer bunkers decentes. Os pobres não tinham essa sorte, mas tinham refúgios especiais. A matilha correu para dentro duma estrutura metálica, que fora uma gare do metro urbano e entraram num enorme túnel.
Toda a civilização estava aqui. Havia aqueles que tinham mais roupa e outros menos, aqueles com tendas maiores e aqueles só com um saco-cama. Os que tinham mais cobertores ou mais comida, dormiam sempre com um ferro ao seu lado e geralmente tinham mais amigos. Não havia governo nem lei e as poucas estruturas sociais eram débeis. As matilhas como a de Marco cingiam-se a cooperar entre si para fazerem incursões perigosas à superfície e voltar com mantimentos. Algumas pobres almas já os seguiam e quando Raquel começou a pregoar “Olh’Ó Mercado! Olh’Ó Mercado fresquinho!” já os habitantes do túnel elevavam os seus objectos pessoais no ar para trocarem por alguma coisa útil naquele fim do mundo.
O Daniel ficou a servir os consumíveis gerais. Toalhas, penicos, papel higiénico e água classe 3 – aquela mais tóxica, que servia muito bem para tomar banho. Ele era um rapaz muito pragmático e com uma vontade sobrenatural de revolucionar o mundo. A Raquel ficou com a parte dos consumíveis alimentícios e a multidão empurrava-se e debatia-se à volta dela para conseguirem mostrar coisas úteis à matilha e assim poderem trocar por algum precioso alimento. Alguns homens dentre a multidão apenas chegavam-se para estarem perto do corpo bem trabalhado da Raquel. O Marco estava colado à rapariga e limitava-se a receber os objectos de troca com uma mão e segurar uma caçadeira com a outra. Não era raro os Mercados das matilhas serem atacados por um grupo de esfomeados ou por outras matilhas. O facto de só estarem três presentes deixou Marco ainda mais nervoso. Se a multidão se organizasse, podiam matá-los e tirar-lhes as coisas. Felizmente, nada disso aconteceu naquele dia porque já tinham passado outras matilhas por ali e não havia ninguém em situações limite de sobrevivência. Essas pessoas em situações limite eram frequentemente chamados de berzerkers e sempre que possível, a população matava-os. Nem sempre era muito bom estar a dormir e não acordar no dia seguinte, porque um berzerker nos confundiu com um bife gigante. Além de pessoas, os berzerkers comiam ratos, betão que raspavam das paredes e alucinavam com a maior panóplia de figuras ctónicas alguma vez registadas.
Algumas horas depois, já não havia nada para trocar. Os relógios que existiam marcavam duas da manhã e a matilha estava estourada. O covil ainda ficava a três horas de viagem a pé.
- Vamos acampar a caminho do covil. – disse Marco.
- Sim, mas não aqui no meio, vamos mais para dentro no túnel. – disse Daniel arrumando os enormes sacos.
Ajudaram Raquel a colocar tudo nas caixas isotérmicas e fizeram-se aos carris velhos e poeirentos. Havia sempre gente nos cantos dos túneis e o melhor sítio para se dormir, era onde não havia gente de mais ou gente de menos. No limite interior daquela ‘povoação’ estavam arranjadas algumas cabanas. Primeiro perguntaram se podiam acampar ali e só depois suspiraram de alívio.