2 – A Cabana

Sempre houve quem pensasse que o mundo ia melhorar com menos gente. Bom, agora tem muito menos gente e só piorou. Antes da Guerra Termonuclear Global (GTG) pensava-se que o mundo estava cheio de indiferença, apatia e individualismo desmedido. Que o mundo só endireitava por se destruir tudo e reconstruir de novo. Hoje, rio-me disso como um louco. Reduza-se o ser humano à insatisfação das suas necessidades mais básicas e temos um animal. É obvio que os amantes do superior mundo antropomórfico negam tudo o que há de mais animalesco. Os humanos só conseguiram uma civilização ‘superior’ por abstracção da satisfação das suas necessidades, ou seja, por pousar em cima das necessidades mais básicas, outras necessidades novas superiores e diferentes. Assim que se satisfazia a fome, passava-se ao dinheiro, depois para o amor, e assim sucessivamente. Alguns chegavam a ser exemplos da bondade e faziam acções de caridade, outros, eram poetas e artistas, outros, líderes políticos. Mas corta-se a comida e cai tudo por terra.

Já ninguém é caridoso, filósofo ou cooperativo, apenas se isso lhes trouxer benefício imediato. Simplesmente não há recursos para todos e a natureza manda-nos combater pela nossa sobrevivência. Ainda assim, eu sempre vi a civilização do túnel como um grande organismo. Não havia rei nem lei, não havia sistemas políticos, não havia países, tudo era um aglomerado de pequenas povoações precariamente interligadas por carris. Algumas coisas encaixavam-se automaticamente, como as matilhas, autênticos mercenários de pão e água. Subitamente Marco acordou!

Havia uma lanterna lá fora e pelos sons ofegantes vindos da cabana ao lado, um casal fazia sexo desenfreado. Marco virou-se no seu saco cama e fechou os olhos. Estava difícil de adormecer e mais difícil ainda de não imaginar o que se passava ao lado. A mulher tinha uma voz sensual e movia o seu corpo de uma forma irresistível e o homem dela estava a aproveitá-la bem. Marco levantou uma mão e agarrou a caçadeira, mas reprimiu-se durante mais alguns momentos. Nos seus 18 anos, já era um homem apático e um líder violento, por isso fora escolhido como tal pela sua matilha. A voz grave e o temperamento agreste fazia dele um cão capaz de sobreviver nas condições mais hostis, mas havia coisas irresistíveis. Marco levantou-se e sentou-se no saco-cama com a caçadeira no colo. Absorvia parte do calor sexual dos seus vizinhos e o desejo irrevogável insurgiu-se tal como o cheiro do sangue para um tubarão.

Nesse momento, o transe primal foi quebrado pelo som de passos na gravilha lá fora. Alguém entrou na cabana e o casal começou a gritar. O estranho disse para o homem lá dentro se afastar e ouviram-se vários bateres secos e sons de luta. O estranho devia ter uma arma de fogo, pois tanto o homem como a mulher não ripostaram o combate. Então o estranho agarrou na mulher e começou a violá-la. O homem dela assistiu em horror, mas depois afastou-se a correr. Tanto Marco como as pessoas no resto das pessoas nas cabanas não saíram para assistir a mulher. O estranho parecia corpulento e enquanto a comia e a segurava, não largava a arma. A voz sensual deu lugar a gemidos e gritos de dor e foi aí que Marco colocou dois cartuchos na caçadeira.

Finalmente, o homem voltou, entrou na cabana e deu dois tiros no estranho. Atiraram-no para fora e voltou tudo ao normal. Marco limitou-se a retirar os cartuchos da caçadeira e deitou-se para trás.

- Melhor ele do que eu. – foi o último pensamento de Marco antes de adormecer.

Na manhã seguinte, a matilha levantou o acampamento e continuou o caminho até ao covil.

- Então? Tudo bem? – perguntou Raquel – não estás com boa cara.

- Está tudo bem. – respondeu Marco com um sorriso.

- Passaste bem a noite?

- Sim. Não aconteceu nada de mais. Só estou muito cansado.

- Toma. Tenho aqui esta maçã. Para emergências.

Marco não hesitou em aceitar o presente. Estava esfomeado. Apesar da caminhada lenta, chegaram cedo à porta do covil. Desligaram as lanternas e bateram nela com força. A blindagem maciça tornava difícil que se ouvisse o que quer que estivesse a acontecer do outro lado. Alguém chegou-se do lado de dentro e abrindo uma ranhura minúscula à altura da boca sussurrou:

- Password?

Nesse momento, algumas lanternas acenderam-se no túnel e surpreenderam a matilha que se preparava para responder. Marco levantou a caçadeira e pousou o saco para ter mais mobilidade. Contudo, os três homens das lanternas não eram hostis, embora pertencessem aos Toxotai – uma pequena matilha com fraca reputação.

- Toxotes. O que estás aqui a fazer? – perguntou Marco.

- Olá Marco. Visto que gosto de ir directo ao assunto, tenho a dizer que precisamos da vossa ajuda. – respondeu Toxotes, o grego.

- Ai é?

- Já deves ter ouvido falar da Terra Prometida…

- Sim, muitas vezes… não me digas que queres assaltar a Terra Prometida?

- Os Toxotai e os Invictus. Gostava de saber se posso contar contigo e com os teus Canis Majoris?

- Preciso de melhor segurança quanto aos vossos objectivos. Se que é que me entendes. – afirmou Marco.

- Garantias são o ouro dos tolos, já dizia a minha mãe. Se decidires acompanhar-nos, vamos juntar-nos na gare perto do antigo túnel desabado amanhã, pelas dez da noite. Prepararemos o plano de assalto, fazemos o serviço e depois dividiremos o saque pelas três matilhas.

- Vou pensar no vosso caso.

Os três Toxotai desligaram as lanternas e desapareceram sem que os seus passos se ouvissem na gravilha. Finalmente Marco sussurrou a password e entrou no seu covil.

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