Jack estava sentado em frente a Peter com um olhar pensativo sobre o tabuleiro de xadrez de pedra. O tempo estava quente e o céu estava limpo, o jardim sempre verde era habitado por umas criaturas que faziam ninhos pendurados nos ramos das árvores e comiam todo o fruto que lhes viesse parar às garras.
Peter fez um movimento de ataque com o cavalo e Jack levantou o sobrolho como se não tivesse gostado muito do movimento.
- “Ei porque é que não jogamos com as peças grandes?” – disse Peter. Neste momento, Jack levantou a cabeça e reparou num tabuleiro gigantesco por trás de Peter e com pedras do tamanho de homens. O padrão do tabuleiro era verde da relva e castanho de terra e as pedras tinham uma faixa de verde e castanha para as peças brancas e pretas respectivamente.
- “Não tinha reparado naquele tabuleiro.”
Levantaram-se e Jack fez o primeiro movimento empurrando com esforço um peão. Peter só levantou a mão e um cavalo saltou sozinho por cima das outras peças.
- “Ei! Eu não consigo fazer isso.” – Peter sorriu.
Após mover outro peão e Peter ter subido um peão também, Jack tentou mover a rainha numa diagonal. Mas mesmo fazendo todo o esforço que podia, não conseguia mover a rainha. Peter já estava às gargalhadas quando decidiu dar uma ajuda. Estendeu a mão e com ela no ar tentou mexer a rainha, mas a peça estava profundamente arraigada.
- “Talvez seja mais pesada que as outras.”
- “Isso não é desculpa.” – nesse momento Jack ouviu bater em pedra, a principio não percebeu de onde vinha o som, mas depois concluiu que só podia vir de dentro da rainha. Sacou a espada e ia tentar cortar a pedra.
- “Espera…” – avisou Peter que mostrou uma marreta de ferro – “Tenho algo melhor!”
Peter martelou na pedra e ao abrir um buraco viu que era uma mulher – Anne.
- “O que raio estás aí a fazer?”
- “Jack? Não sei! Estava a almoçar e vieram uns gatunos e prenderam-me aqui.” – Peter pensou que aquela história estava muito mal contada, mas continuou a bater na pedra.
- “Mas se eu soubesse que te ia ver a seguir, teria dado uma carga de porrada nos gatunos.”
- “…”
- “Só te queria dizer…”
Ouviram-se duas passadas gigantes e graves, Jack olhou para trás e viu um grande dragão preto a aproximar-se.
- “Deixem este para mim!” – o caçador de dragões pôs-se em posição de combate, mas o dragão assim que chegou perto baixou-se e comeu-o sem cerimónias.
- “Raios! Os dragões já num falam antes de atacar?” – disse ele a tentar debater-se com os dentes, mas foi engolido inteiro e caiu numa poça de líquido verde – “Estou a derreter!!!!!!!!!!” – e perdeu os sentidos.
Quando voltou a si mesmo, viu-se enclausurado numa espécie de casulo, levantou a cabeça mas bateu no vidro e praguejou por causa da dor.
- “Ando a perder a sorte!” – as redondezas eram-lhe estranhamente familiares. Parecia uma sala duma nave espacial, mas não se lembrava de onde a conhecia. O vidro levantou-se sozinho e finalmente saiu do casulo metálico. Peter e Anne também estavam em casulos.
- “O que raio é que aquele dragão nos fez.” – tentou abrir os vidros dos casulos dos colegas mas não conseguiu, depois reparou em si mesmo e viu que a única roupa que tinha era uma t-shirt e uns boxeurs, nem sinais da espada.
Do outro lado da sala estava uma mesa com um computador.
- “…Não percebo muito disto… tenho que tirar a Anne dali.” – Jack pensou na espada, mas ela não apareceu. Pensou num pé de cabra, olhou em volta mas também não apareceu – “O que é que me aconteceu! Morri e estarei no céu?”
Atravessou a sala e indo por um corredor estreito foi ter à cabine de comando, onde pela janela se via a orla do planeta Marte.
- “A MISSÃO!!!!! Oh meu Deus!!!!” – a memória de Jack atingiu-o como um trovão, mas infelizmente não veio toda.
Lembrou-se que eram astronautas numa missão de extrema importância, mas não se lembrava qual, mas essa história cruzava-se na memória com a vida que teve enquanto caçador de dragões e tornava-se tudo exageradamente confuso. Anne e Peter estavam em sono criogénico e Jack tinha que os tirar de lá o mais cedo possível para saber se conseguiam lembrar-se da missão.
O homem de meia idade tentou explorar o funcionamento do computador da melhor maneira que pôde e após alguns suores frios conseguiu encontrar o comando que os libertava do sono.
Peter abriu os olhos e estendeu a mão contra o vidro, apercebendo-se da barreira fez um gesto com a mão e o vidro abriu-se. Anne olhou em volta e deu uma cabeçada no vidro como Jack.
- “Ei, onde estou.”
- “Digam-me que se lembram da missão?”
- “Qual missão? Já encontramos a Anne! A propósito… como é que te safaste do dragão?”
- “Ei! Onde está a minha metralhadora?” – perguntou Anne. Jack meteu as mãos na cabeça porque os colegas estavam profundamente confusos.
- “Nós estivemos a dormir este tempo todo…”
- “A dormir? Estás louco! Já não durmo há… há uns bons anos.”
- “Venham…”
Jack levou-os à cabine de controlo para lhes mostrar Marte.
- “Ali! Lembram-se agora?” – apontou nervoso para o espaço.
- “Meu Deus!!!!!” – exclamou Anne.
- “A missão deve estar escrita em qualquer lado.” – Peter parecia mais sereno do que os outros e começou a fazer gestos no ar.
- “Peter! Isso deixou de funcionar!”
- “Não acredito! Perdi os meus poderes.”
- “PETER!!! Agora estamos acordados e precisamos de saber qual é a missão!”
Enquanto eles procuravam entre as coisas pessoais na esperança que as memórias voltassem, um pedregulho do tamanho da América saiu projectado da órbita de Marte em direcção à Terra e causou uma enorme catástrofe no seu planeta de origem, matando milhões de pessoas.
Esta foi a história da primeira e última missão onde implementaram o sono criogénico de longa duração.
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