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	<title>Contos &#187; oásis</title>
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		<title>Contos &#187; oásis</title>
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		<title>1.07 &#8211; Arash, o archeiro</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Feb 2009 22:33:43 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[As montanhas do norte estavam mais perto e já se via a grande cidade de Harran erigida numa encosta. Depois daquela cordilheira montanhosa estava o Reino de Lydia. Foi na primeira noite de Nisannu de 194 AN que eles chegaram aos portões de Harran. A cidade estava viva e em festa, pois era uma noite de ano novo bastante agradável. As árvores já tinham começado a florescer e em pouco tempo começariam a dar frutos e os pássaros chilreavam desvairados durante o dia.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=contospm.wordpress.com&blog=645425&post=179&subd=contospm&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>As montanhas do norte estavam mais perto e já se via a grande cidade de Harran erigida numa encosta. Depois daquela cordilheira montanhosa estava o Reino de Lydia. Foi na primeira noite de Nisannu de 194 AN que eles chegaram aos portões de Harran. A cidade estava viva e em festa, pois era uma noite de ano novo bastante agradável. As árvores já tinham começado a florescer e em pouco tempo começariam a dar frutos e os pássaros chilreavam desvairados durante o dia. No momento em que eles chegaram à cidade já não se via a lua, mas tinha estado num quarto crescente fino e belo, tal como o que Shadi viu no primeiro dia de viagem. O Viajante desmaterializou-se para não atrair as atenções das pessoas e Shadi pagou um quarto numa estalagem. No dia seguinte, iriam à procura do caçador do arco prateado.</p>
<p>Eu já sabia o que eles iriam encontrar, ou pelo menos em parte. Não podia ser um caçador qualquer, tinha de ser alguém especial. Por outro lado, era dia de ano novo e os festejos duravam onze dias. Se bem me lembro, havia um grupo de homens que vinham para Harran para atacar o rei e eles já podiam ter chegado à cidade. O rei Nabonido acreditava que Sin era um deus melhor e mais nobre do que Marduk, esquecendo-se que essas supostas divindades eram apenas símbolos e nada mais do que isso. Eram figuras feitas de barro, mas principalmente, figuras feitas da imaginação dos humanos. Eu reconheço a importância dos deuses na vida dos humanos, mas frequentemente esquecem-se que eles não existem realmente. Se esta gente percebesse que a importância da vida das outras pessoas era maior do que a importância que se concedia a um deus destes, talvez se evitassem guerras como esta.</p>
<p>Na manhã seguinte, Shadi levantou-se da cama, vestiu-se e partiu à procura do caçador. O Viajante decidiu separar-se dela e procurar em lugares diferentes enquanto deslizava pelo ar, desmaterializado. Rapidamente cobririam toda a cidade e descobririam o caçador. Harran era uma cidade inclinada, por isso a maioria das ruas acompanhavam a encosta da montanha e subiam até ao topo onde estava construída uma torre que parecia um farol. Harran também tinha uma Via Processional, mais estreita que a de Babilónia, mas que em vez de culminar num templo de Ishtar fora da cidade, culminava no templo restaurado de Sin, bem no centro. No momento em que Shadi atravessou a Via Processional, havia uma multidão à espera duma cerimónia que se costumava fazer na cidade de Babilónia. Em procissão ia o rei e a Alta Sacerdotisa do templo de Ishtar da cidade de Uruk. Se Shadi continuasse a trabalhar no templo durante aquele ano, podia ter sido ela naquela cerimónia. Este casamento sagrado simbolizava o casamento entre Ishtar e Tammuz e anunciava o renascimento da natureza e da vida. Apesar do belo momento, a procissão culminaria pela primeira vez na história do império, num templo de Sin. Rapidamente, alguns homens começaram a sair do meio da multidão e dirigiam-se ao rei para o matar. A polícia local desembainhou as espadas e a bela cerimónia transformou-se numa batalha campal, rudemente dividida em apoiantes de Sin e apoiantes de Marduk. Os sons alegres da multidão transformaram-se em gritos de desespero. Estes deuses também nunca tinham sido rivais em panteão algum, mas o Rei Nabonido encarregou-se de os tornar rivais.</p>
<p>Shadi depressa saiu do meio da confusão e subiu uma rua a pique. A torre que parecia um farol apanhou a atenção dela e continuou a subir até chegar à sua entrada. O portão estava aberto e lá dentro observou uma sala bem decorada. Estavam um rapaz e uma rapariga, sensivelmente da idade de Shadi, sentados a conversar com algum nervosismo nas suas faces.</p>
<p>&#8220;Bom dia. Posso entrar? Não quero ser apanhada na confusão lá fora.&#8221;</p>
<p>&#8220;Com certeza. Bem vinda à casa de Arash.&#8221; Disse a rapariga. &#8220;Eu sou a Parisa e o meu irmão é o Siavush.&#8221;</p>
<p>&#8220;Muito prazer. Sou a Shadi. Eu ando à procura dum caçador que carrega um arco prateado. Sabem onde posso encontrá-lo?&#8221;</p>
<p>&#8220;O caçador que procuras é nosso tio, Arash. Ele está no segundo piso, na sala dos troféus.&#8221; Respondeu Siavush, manifestamente atraído pela beleza de Shadi.</p>
<p>Shadi subiu à sala dos troféus através dumas escadas em espiral e viu o homem observando o exterior por uma das janelas rectangulares. O sol matinal incidia sobre ele e as vestes compridas reflectiam a luz branca com esplendor. Na sua pose, o caçador denunciava um heroísmo incomum. Mantinha as mãos atrás das costas e uma expressão melancólica. Tanto o cabelo como a barba estavam intrincadamente arranjados no melhor estilo babilónico. Parecia preparado para a cerimónia, mas o combate lá em baixo preocupava-o mais do que o pó que havia no ar e que se grudava às suas vestes. A sala estava decorada com as cabeças dos animais que matava e entre elas, estava a cabeça do corpo material do Viajante. No centro da sala estava um reluzente arco metálico e prateado que continha pequenos desenhos e motivos esculpidos. Não devia haver outro arco como aquele em todo o mundo conhecido. Apenas uma grande sabedoria de artesanato militar a podia ter feito. Ao lado estava uma aljava de couro, carregada de flechas.</p>
<p>&#8220;Finalmente chegaste.&#8221; Disse o homem, olhando vagamente para Shadi de alto a baixo.</p>
<p>&#8220;Estava à minha espera?&#8221;</p>
<p>&#8220;Estava.&#8221;</p>
<p>Shadi deu alguns passos na direcção do homem e o piso de madeira rangia baixinho. Arash aproximou-se calmamente do arco e pôs a aljava às costas. Uma observação cuidadosa fez Shadi reparar que o caçador tinha umas tatuagens reluzentes nas costas das mãos. Por momentos não distinguiu se as tatuagens tinham luz própria ou se era resultado da reflexão da luz solar.</p>
<p>&#8220;Toda a minha magia não conseguiu parar o Viajante&#8230;&#8221; Disse ele tristonho.</p>
<p>&#8220;O que quer dizer com isso?&#8221;</p>
<p>&#8220;Caso não tenhas reparado jovem, os Chacais não desenham círculos no chão e as árvores não roubam a alma das criaturas. Invoquei-os para dissuadir o Viajante de chegar até mim, mas agora é tarde de mais. Talvez ele tenha direito à vingança&#8221; Disse Arash olhando para o troféu da pantera negra na parede. &#8220;Mas se eu morrer, os meus sobrinhos ficarão sem sustento e sem casa. A minha mulher ficaria desgostosa para o resto da vida. Que tipo de futuro teriam os meus filhos se eu morresse agora?&#8221;</p>
<p>&#8220;Sempre posso dizer-lhe que nunca encontrei o senhor&#8230;&#8221; Respondeu Shadi.</p>
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		<title>1.06 &#8211; Predadores de outros reinos</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Feb 2009 22:32:13 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Quando Shadi acabou de me contar a história até àquele ponto, eu ainda estava pensativa sobre a discussão incompleta com o Viajante. Nesse dia, saí para um passeio nocturno nas ruas serpenteantes. A noite estava quente e escura. Os candeeiros de vela conferiam à cidade a iluminação suficiente para se ver por onde andava. O comprimento do meu cabelo ainda fazia virar as cabeças de alguns transeuntes, até que parei debaixo de uma arcada escura.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=contospm.wordpress.com&blog=645425&post=177&subd=contospm&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Quando Shadi acabou de me contar a história até àquele ponto, eu ainda estava pensativa sobre a discussão incompleta com o Viajante. Nesse dia, saí para um passeio nocturno nas ruas serpenteantes. A noite estava quente e escura. Os candeeiros de vela conferiam à cidade a iluminação suficiente para se ver por onde andava. O comprimento do meu cabelo ainda fazia virar as cabeças de alguns transeuntes, até que parei debaixo de uma arcada escura. Estive na escuridão por alguns momentos e olhei para as miríades de estrelas no céu. Fixei os olhos num grupo de estrelas a que os escravos hebreus chamam de Kimah e os acádios chamam de Sebitti<a name="_ftnref1" href="#_ftn1">[1]</a>. É sempre giro ver a nossa casa dum sítio tão longínquo e amado como a Terra.</p>
<p>Ao sorrir para o céu, reparei que um homem que passava do outro lado da rua, parou e observou-me fixamente. Rapidamente mais três homens saltaram das esquinas com punhais e rodearam-me.</p>
<p>&#8220;Passa para cá todo o dinheiro que tens.&#8221; Disse um dos homens.</p>
<p>&#8220;Não tenho nenhum&#8230;&#8221; Estive para lhes dar um discurso sobre o quão imprudente seria atacar-me, mas não me preocupei, pois não iam dar-me atenção.</p>
<p>&#8220;Claro que tens. Se não nos deres o dinheiro&#8230;&#8221;</p>
<p>Dei-lhes um tratamento de pancada simples. Um soco de palma aberta a cada um e foram todos parar ao chão antes de perceberem o que se estava a passar. Não exagerei na força, mas dois deles levantaram-se, pouco dissuadidos com os meus golpes. Fiz duas faíscas passar pelos meus braços e estalar nas pontas dos dedos, iluminando as faces aterrorizadas dos assaltantes. Foi aí que perceberam que eu não era nem deste, nem do próximo mundo. Os homens têm medo do que não conhecem, e estes não eram excepção. Fugiram com todo o fôlego que ainda lhes restava.</p>
<p>Mas a discussão da pantera não me saiu da cabeça. A discussão da liberdade dos nossos desejos e da liberdade dos desejos dos outros era mais do que eterna. Até que ponto é que eu, como ser individual, me sobreponho à colectividade em que me insiro? E vice-versa. Esta é a pergunta certa para estas criaturas. Certamente a pantera começou a despertar alguns pensamentos em Shadi sobre a vida dela. Tudo o que ela me contou provava que eu estava perante uma das criaturas que eu queria capturar e estudar. Seria um avanço para a ciência Pleadeana se eu o conseguisse fazer.</p>
<p>No dia seguinte, Shadi continuou a história. &#8220;À medida que continuava a viagem, lembrei-me da minha antiga vida no templo de Ishtar.&#8221; Disse-me Shadi. &#8220;Eu tinha saudades. Tinha saudades do amor, das sensações e do calor dos corpos. Ali, eu era a deusa, a Rainha dos Céus e da Terra. A Estrela da Madrugada e do Anoitecer. Paixão e Prazer.&#8221;</p>
<p>Ela continuou a contar-me como chegou a altura em que eles se tiveram de separar das margens do Eufrates, antes de chegarem a Carquemish. Partiram directamente para norte, mesmo pelo meio da savana queimada. Tinham passado quase um ano em viagem e agora estavam perto. As montanhas nortenhas cravavam o horizonte e recortavam o céu a qualquer hora do dia. Cansada, a rapariga sentou-se em cima do camelo e entreteu-se a tocar a lira. O Viajante caminhava, destemido como sempre, sem mostrar sinais de cansaço.</p>
<p>Quando caiu a noite, acamparam junto a uma árvore solitária no meio da savana. Shadi sentou-se confortavelmente junto ao tronco e o Viajante espreguiçou-se e afiou as unhas na madeira escura. A manutenção das unhas dele fizeram saltar lascas e por momentos, Shadi sentiu o tronco mexer. Ao princípio ela pensou que o Viajante estava a deitar a árvore abaixo, mas quando as raízes começaram a sair da terra por vontade própria, afastou-se com medo. A árvore tornou-se numa criatura mágica, os ramos em braços e as raízes em pernas rastejantes que chegavam a todo lado. A pantera contra atacou bravamente os ramos que a tentava chicotear.</p>
<p>&#8220;Não podes vencê-la! Vamos fugir!&#8221; Gritou Shadi.</p>
<p>Mas um ramo forte conseguiu agarrar o Viajante pelo pescoço. Havia algo de muito terrível naquela árvore, pois não só agarrava o Viajante, como agarrava a sua própria alma. Ele contorcia-se, mas não conseguia destruir o ramo com as garras.</p>
<p>&#8220;Desmaterializa-te.&#8221; Sugiriu a rapariga, pegando no seu punhal.</p>
<p>&#8220;Não consigo.&#8221;</p>
<p>A pantera fumegava, mas não conseguia desaparecer nem sair das garras mágicas da árvore. Foi nesse momento que Shadi tomou uma acção. Armada apenas com o punhal, cortava e afastava os ramos que vinham ter com ela. Enquanto a rapariga demorava a chegar ao amigo, a árvore começou a enterrar-se lentamente. As raízes perfuraram a terra com facilidade e o tronco começava a afundar-se como se estivesse em cima de areias movediças. Se Shadi não chegasse a tempo, a árvore maldita iria levar o Viajante para dentro da terra. Destemida e aguentando as sucessivas chicotadas e tentativas de amarro da árvore, cravou o punhal no ramo que segurava a pantera e partiu-o ao meio.</p>
<p>Afastaram-se enquanto observavam a árvore a enterrar-se sozinha até desaparecer na terra. Shadi e o Viajante acamparam noutro lugar, deixando para trás os membros cortados e mortos da árvore estranha. A rapariga tinha ficado com cortes compridos na pele e o sangue escorria-lhe das feridas, ensanguentando a roupa rasgada. Estava estourada, mas conseguiu salvar o seu precioso amigo. O melhor que o Viajante fez para agradecer foi lamber os cortes com a sua língua áspera. No dia seguinte, Shadi já estava completamente recuperada e pronta para continuar a viagem. Almoçaram javali cozinhado numa fogueira. Os javalis são raros por estes lados, mas eles existem e os mercadores às vezes trazem as carcaças bem conservadas. Shadi e o Viajante não atacavam ninguém, mas os mercadores com medo insistiam em oferecer coisas, e obviamente, a rapariga e a pantera não recusavam. Bem alimentados, levantaram-se e seguiram para norte.</p>
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<hr size="1" /><a name="_ftn1" href="#_ftnref1">[1]</a> Sebitti eram sete poderosos guerreiros. Estas estrelas são actualmente identificadas como as Plêiades.</p>
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		<title>1.05 &#8211; Os Chacais</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Feb 2009 22:30:38 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Ao anoitecer, já Shamash descia dos céus e Sin subia do outro lado do firmamento, Shadi e o Viajante atravessavam um campo arenoso com pouca vegetação. No horizonte, ainda quente, estavam postadas duas bestas. Não foi até quando se chegaram suficientemente perto que perceberam que animais eram. Dois Chacais de pelo dourado e olhos dominantes. Um deles era do dobro do tamanho do Viajante e o outro era pequeno e jovem.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=contospm.wordpress.com&blog=645425&post=175&subd=contospm&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Ao anoitecer, já Shamash descia dos céus e Sin subia do outro lado do firmamento, Shadi e o Viajante atravessavam um campo arenoso com pouca vegetação. No horizonte, ainda quente, estavam postadas duas bestas. Não foi até quando se chegaram suficientemente perto que perceberam que animais eram. Dois Chacais de pelo dourado e olhos dominantes. Um deles era do dobro do tamanho do Viajante e o outro era pequeno e jovem. O grande Chacal provavelmente era um chacal fêmea esfomeado. Num lugar como aquele, a carne era escassa. Isso era o suficiente para transformar qualquer carnívoro numa máquina de guerra.</p>
<p>Mas havia uma certa honra selvagem naqueles chacais que não se moveram até que Shadi e o Viajante pararam a dez passos deles. Estavam frente a frente e mesmo assim, os chacais pareciam estátuas douradas. Quando uma brisa se atravessava entre eles, o pelo dos animais ondulava e partículas douradas eram levadas pelo vento. Shadi reparou que os animais estavam no centro dum círculo desenhado na terra e ela e a pantera estavam a um passo de entrar no círculo.</p>
<p>&#8220;Eu trato disto.&#8221; Disse o Viajante.</p>
<p>&#8220;Não podemos contornar os chacais e evitá-los?&#8221; Perguntou Shadi.</p>
<p>&#8220;Uma necessidade como a fome é o que dita as regras aqui, não a honra que o Chacal possa ter.&#8221; Disse o Viajante dando um passo e entrando no círculo.</p>
<p>O pequeno chacal afastou-se e a sua mãe ficou subitamente agressiva. O felídeo e o grande canídeo fitaram-se por momentos. Shadi limitou-se a tirar o punhal que trazia guardado, mas logo sentiu uma certa compaixão pelo Chacal. Ela pensou em caçar pequenos roedores que geralmente viviam nas imediações do rio e oferecê-los ao animal, mas o Viajante já se preparava para investir. Num piscar de olhos, o combate começou. Cruzavam-se grandes caninos e grandes lâminas que saíam das patas de ambos, mas dada a natureza etérea do Viajante, o Chacal era incapaz de lhe fazer um arranhão sequer. Com uma agressividade voraz, o combate terminou tão depressa como começou e a cria dourada e felpuda foi obrigada a fugir do local de combate e a abandonar a progenitora.</p>
<p>&#8220;Vamos.&#8221; Disse o Viajante com rispidez.</p>
<p>Shadi seguiu viagem, ainda horrorizada com a violência que o seu amigo mostrara. Sem olhar duas vezes para trás, ele deixou o Chacal ali, deitada e moribunda.</p>
<p>&#8220;É essa a tua suposta superioridade moral em relação aos humanos? Matar a Chacal não foi uma necessidade nem uma vingança. Se não foi por pura maldade, então porque te tornaste numa besta tão feroz dentro do corpo de um animal tão belo?&#8221;</p>
<p>&#8220;A Chacal atacaria mesmo fora do círculo. Ficará sempre a dúvida na tua mente porque não o viste sair e atacar primeiro. Mas garanto-te que a inevitabilidade do nosso combate foi produzida primeiro pelo combate dos nossos desejos, no interior dos nossos corações. Ele necessitava de comida, nós necessitávamos de continuar o nosso caminho. O ponto em que devemos ceder às necessidades alheias, não é uma resposta exacta ao alcance da tua espécie.&#8221;</p>
<p>&#8220;Tu também não a viste sair e atacar em primeiro lugar, também não sabias se ela nos atacaria fora do círculo.&#8221;</p>
<p>&#8220;Quantas vezes enterraste a tua honra e cedeste aos teus desejos mais primários? Dezenas? Centenas? E mesmo que escolhesses a honra, não ficam ainda os desejos no teu íntimo, à espera de serem libertos? A Chacal atacaria porque a besta dentro dela assim a comandava.&#8221;</p>
<p>&#8220;Era assim que gostavas que os humanos fossem? Como animais.&#8221;</p>
<p>&#8220;Existe mais alguma maneira de ser? A tua deusa percebe o que eu quero dizer melhor do que tu.&#8221;</p>
<p>Pequenas cidades apareciam e desapareciam no horizonte, tanto deste, como daquele lado do rio. Os mantimentos em cima do camelo cresciam de mês para mês, pois os mercadores que passavam, com medo da pantera, até ofereciam comida e dinheiro para não serem atacados. Apesar de longa, acabou por tornar se fácil fazer a viagem. Certo dia, Shadi até conseguiu um quarto no conforto de uma albergaria, numa pequena cidade de praças adornadas com postes e mosaicos assírios.</p>
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		<title>1.04 &#8211; Os iluminados</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Feb 2009 22:25:54 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[A noite caiu na cidade de Babilónia à medida que a jovem me contava a história do Viajante. Shadi providenciou-me um quarto onde eu pudesse dormir confortavelmente. Tratou-me como uma rainha, pois a janela do meu quarto tinha vista directa para o centro da cidade. Perto do Etemenenki, ou da Torre de Babel, como é conhecido no Ocidente, havia um ajuntamento de pessoas. Perguntei a Shadi o que se passava e ela contou-me que o Rei Nabonido vedou a entrada do Etemenenki e do Esagila, o templo de Marduk.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=contospm.wordpress.com&blog=645425&post=171&subd=contospm&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>A noite caiu na cidade de Babilónia à medida que a jovem me contava a história do Viajante. Shadi providenciou-me um quarto onde eu pudesse dormir confortavelmente. Tratou-me como uma rainha, pois a janela do meu quarto tinha vista directa para o centro da cidade. Perto do Etemenenki, ou da Torre de Babel, como é conhecido no Ocidente, havia um ajuntamento de pessoas. Perguntei a Shadi o que se passava e ela contou-me que o Rei Nabonido vedou a entrada do Etemenenki e do Esagila, o templo de Marduk. Só o facto do Rei ter restaurado o templo de Sin em Harran, fez com que os sacerdotes de Marduk, aqui em Babilónia, começassem a mostrar um certo desconforto pelas preferências teológicas do rei. Mas proibir o acesso ao próprio templo de Marduk era cruel. A polícia não só impedia a entrada no templo como condenava à morte qualquer adoração do deus padroeiro da capital. Cá para mim, Nabonido estava a pedir uma guerra civil. Fazer braços de ferro entre dois deuses não é inteligente, especialmente dois com tantos seguidores. Mas a tensão já durava há mais de catorze anos e deixei de me preocupar, por isso fui dormir. No dia seguinte, passeei um pouco pela manhã, mas depois do almoço, voltamo-nos a sentar num dos bancos do jardim central. Desta vez Shadi vinha acompanhada de dois escravos, um com um guarda-sol de linho e outro com um leque comprido, feito de penas de flamingo presas numa cana.</p>
<p>Ao continuar a história, a jovem contou-me que iniciou a viagem para Harran sem qualquer preparação. Seguiu para noroeste acompanhada por um dos braços do rio Eufrates e pelos intermináveis campos verdes do crescente fértil. O Viajante seguia ao lado dela, determinado a chegar ao destino. Escusado será dizer que os poucos transeuntes que passavam, afastavam-se assim que viam a pantera.</p>
<p>Shadi não abandonou o camelo, pois providenciava bom transporte e ainda carregava as bolsas de água. A partir de certo momento, pareceu que a civilização deixou de existir. A vegetação tornou-se rasteira e selvagem, já não se avistava tantos animais, mas a estrada marcada pelos trilhos de carroças e camelos permanecia. Já não havia grandes muralhas no horizonte nem campos cultivados nem engenhosos sistemas de irrigação. Apenas o zumbido duma abelha e o remexer ocasional dos arbustos. Na primeira noite, acamparam perto do rio, mas de modo a que não ficassem ensopados nas terras pantanosas. Shadi não tinha um cobertor para se proteger do frio laminado das noites babilónicas, mas o Viajante sugeriu uma solução.</p>
<p>&#8220;Se te deitares ao meu lado, o meu pêlo aquecer-te-á e não passarás frio.&#8221;</p>
<p>Então Shadi enrolou-se ao lado do Viajante como se fosse também da família felina, espantando o frio e adormecendo pacificamente.</p>
<p>Nos dias que se seguiram, a alimentação deles baseou-se em pequenos peixes do Eufrates. O Viajante atravessava a zona pantanosa até submergir as patas na água e caçava os peixes que podia. Da minha parte, não só achei estranho um felino caçar peixes no Eufrates, como achei estranho ele viajar com a rapariga e ser humilde, quando demonstrara que não nutria qualquer amor à espécie humana. Este era realmente diferente.</p>
<p>Em poucos dias chegaram a um delta, onde o rio se unia para formar um sulco mais profundo e mais largo. Shadi atravessou um dos braços do rio agarrada às costas do Viajante, que nadava exemplarmente. De seguida subiram a encosta à direita do rio. Do topo, via-se uma extensa savana cravada de arbustos amarelados e queimados pelo sol. O Eufrates agora já não estava ao nível deles, mas vinha de um desfiladeiro que só desaparecia no horizonte. Ocasionalmente, desciam em zonas menos inclinadas até ao rio para beber água e apanhar peixe. O Viajante tinha dito para poupar a água que Shadi trazia nas bolsas, pois iam precisar do líquido precioso mais tarde.</p>
<p>Inesperadamente, encontraram um acampamento montado no meio da savana. Parecia abandonado, mas o sol raiava a pique e podiam estar todos dentro das tendas. O Viajante esfumou-se, pois não precisava de gerar pânico, e Shadi entrou na tenda central.</p>
<p>&#8220;O que fazes aqui jovem acádia?&#8221; Perguntou o homem que habitava a tenda.</p>
<p>&#8220;Estou de passagem para Harran. Vi o acampamento e fiquei curiosa.&#8221;</p>
<p>&#8220;Nós também vamos para Harran. Por acaso não irás também pela mesma causa que nós?&#8221;</p>
<p>&#8220;Não sei que causa é essa.&#8221;</p>
<p>&#8220;O rei Nabonido vai fazer as celebrações do ano novo em Harran a partir deste ano. Não podemos pactuar com isto. Ele trata Marduk como se fosse um mortal qualquer e não como o rei dos céus. Marduk encarregou-nos de fazer a verdadeira justiça, por isso vai haver uma grande matança.&#8221;</p>
<p>Então Shadi ouviu a voz do Viajante entrar pelo seu ouvido e dizer que não precisavam daqueles homens para continuar a viagem. Por isso, Shadi, despediu-se, saiu da tenda e fez-se de novo à estrada. A pantera materializou-se, condensando as partículas de fumo negro ao lado da rapariga.</p>
<p>&#8220;Estes são os iluminados que envergonham a vossa espécie.&#8221; Começou o Viajante na sua habitual voz penetrante. &#8220;Movidos como peças de um qualquer xadrez persa, debatem-se por causas invisíveis. O próprio rei é suficientemente cego para ser religiosamente intolerante. Os homens servem a sua fé em vez de usarem a fé para os servir. Primeiro domesticam-na e depois tornam-se escravos dela.&#8221;</p>
<p>Perante esta crítica dura, Shadi não conseguiu construir rapidamente um argumento que defendesse a sua espécie.</p>
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		<title>1.03 &#8211; Um amigo errante</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Feb 2009 22:24:34 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Em consequência do trágico acontecimento, Shadi optou por se alistar no templo de Ishtar e tornou-se sacerdotisa. Com a sua beleza sedutora e um pouco de sorte à mistura, conseguiu passar nas provas de admissão do Alto Sacerdote de Ishtar. Na realidade ela não tinha muitas opções, ou tornava-se escrava ou prostituta. Dentro da hipótese de se tornar prostituta, ou fazia-o por conta própria, ou tentava a sua sorte no templo, que foi o que ela fez. Com o ordenado chorudo que ganhava, conseguiu recuperar parte da fortuna do pai.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=contospm.wordpress.com&blog=645425&post=169&subd=contospm&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Em consequência do trágico acontecimento, Shadi optou por se alistar no templo de Ishtar e tornou-se sacerdotisa. Com a sua beleza sedutora e um pouco de sorte à mistura, conseguiu passar nas provas de admissão do Alto Sacerdote de Ishtar. Na realidade ela não tinha muitas opções, ou tornava-se escrava ou prostituta. Dentro da hipótese de se tornar prostituta, ou fazia-o por conta própria, ou tentava a sua sorte no templo, que foi o que ela fez. Com o ordenado chorudo que ganhava, conseguiu recuperar parte da fortuna do pai. A Ishtar babilónica já não era a mesma Innana suméria de há alguns milhares de anos. Ishtar é bem mais agressiva e apaixonada. Eu conseguia ver agora essas qualidades da Estrela da Madrugada em Shadi. Ela ganhou a admiração dos outros sacerdotes, dos adoradores de Ishtar e da população em geral. Era uma mulher que vivia com toda a luxúria que a imaginação concebia, e gostava disso.</p>
<p>Mas como eu previ, status e luxúria não é tudo no mundo. Ela começou a desejar outra coisa. Nos seis meses que se seguiram, tornou-se difícil para Shadi encontrar um amigo que não estivesse interessado no seu corpo. A vida era monótona, ela era uma mulher de objectivos nobres, não era feliz com uma vida simples. Então certo dia, ela decidiu encontrar-se com o Viajante. Um camelo, duas bolsas de água, a sua lira e um punhal, era o suficiente para prepará-la para a viagem até ao oásis. No primeiro dia do mês de Addaru do ano de 193 AN<a name="_ftnref1" href="#_ftn1">[1]</a>, Shadi chegou ao oásis debaixo de uma lua crescente fina e grande, apontada para cima.</p>
<p>O Viajante estava sentado na areia fria como a majestade de um reino invisível. O seu perfil estava irrealmente iluminado pela lua. Essa ténue linha que quebrava sensualmente a escuridão, possuía as curvas lombares que identificariam qualquer felino, grande ou pequeno, em qualquer parte do mundo.</p>
<p>&#8220;Eu sabia que ele não era um demónio.&#8221; Contou-me Shadi.</p>
<p>&#8220;Era como se conseguisses ver o que ia no coração dele, certo?&#8221; Confirmei.</p>
<p>&#8220;Exactamente. Quando ele me atacou da primeira vez, era apenas uma raiva animal, mas na sua essência, eu sabia que ele não era uma besta qualquer.&#8221;</p>
<p>Shadi aproximou-se do Viajante, enquanto este observava o horizonte com uma tristeza solitária. Não havia mais ninguém no oásis, nem os astrónomos persas, mas corria uma brisa fresca.</p>
<p>&#8220;Meu belo animal&#8230; vim procurar&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu sei o que vieste procurar.&#8221; Respondeu o Viajante com uma voz calma, deixando Shadi sem saber se estava a ser árido ou compassivo. &#8220;Eu disse que não te podia ajudar, mas a vossa raça tem dificuldades em perceber as coisas à primeira.&#8221;</p>
<p>&#8220;E se eu te ajudar? O que acontece?&#8221;</p>
<p>O animal olhou então para ela e pensou por um pouco. Rodeou-a e sentou-se mais perto. &#8220;O que desejas concretamente em troca dessa ajuda que me queres prestar?&#8221;</p>
<p>&#8220;Quero um amigo. Um amigo em quem eu possa confiar, alguém que não me abandone nos momentos mais difíceis da minha vida e que me aceite como sou.&#8221;</p>
<p>&#8220;E o que me dás em troca?&#8221;</p>
<p>&#8220;Bem&#8230; sei de um lugar onde se reúnem os melhores caçadores do reino. Poderás encontrar o teu caçador lá. Harran, a cidade de Sin, o deus lua.&#8221;</p>
<p>&#8220;Então serei tudo aquilo de que necessitas se me acompanhares até Harran.&#8221;</p>
<p>&#8220;Preciso de passar pelo meu palácio para reunir mantimentos.&#8221;</p>
<p>&#8220;Não vai ser necessário, confia em mim. É melhor partirmos já, temos uma longa jornada pela frente.&#8221;</p>
<p>Então Shadi e o Viajante partiram para as terras do norte, com destino a Harran. Previ que Shadi procurasse o Viajante, mas a rapariga surpreendeu-me ao aceitar viajar com ele. Basicamente, deixou tudo para trás.</p>
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<hr size="1" /><a name="_ftn1" href="#_ftnref1">[1]</a> 193 AN = 554 AEC; Anno Nabonassari é um calendário reorganizado por Claudius Ptolomeu quando este teve acesso a registos astronómicos babilónicos que começaram com o reinado de Nabonassar em 747 AEC.</p>
 Tagged: babilonia, espíritos, holograma, oásis, pleiades, prostituição sagrada, religião, scifi <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/contospm.wordpress.com/169/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/contospm.wordpress.com/169/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/contospm.wordpress.com/169/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/contospm.wordpress.com/169/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/contospm.wordpress.com/169/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/contospm.wordpress.com/169/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/contospm.wordpress.com/169/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/contospm.wordpress.com/169/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/contospm.wordpress.com/169/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/contospm.wordpress.com/169/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=contospm.wordpress.com&blog=645425&post=169&subd=contospm&ref=&feed=1" /></div>]]></content:encoded>
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		<title>1.02 &#8211; Shadi</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Feb 2009 22:22:15 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[A rapariga abraçou-me e cumprimentou-me com um beijo na face, mas nunca me tinha visto na vida para me dar tal confiança. Shadi de seu nome, não teria mais de trinta e quatro anos e possuía um cabelo comprido preto, que lhe caia como uma seta no centro das costas. De pele morena e sedosa, continuou a sorrir adoravelmente. A face dela tinha umas feições arredondadas e possuía um queixo bicudo e feminino. Com tanta beleza e alegria, ninguém diria que ela era mais uma sacerdotisa no templo de Ishtar.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=contospm.wordpress.com&blog=645425&post=166&subd=contospm&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>A rapariga abraçou-me e cumprimentou-me com um beijo na face, mas nunca me tinha visto na vida para me dar tal confiança. Shadi de seu nome, não teria mais de trinta e quatro anos e possuía um cabelo comprido preto, que lhe caia como uma seta no centro das costas. De pele morena e sedosa, continuou a sorrir adoravelmente. A face dela tinha umas feições arredondadas e possuía um queixo bicudo e feminino. Com tanta beleza e alegria, ninguém diria que ela era mais uma sacerdotisa no templo de Ishtar.</p>
<p>&#8220;Ouvi falar da tua história Shadi. Importas-te de me contar?&#8221; Perguntei-lhe eu.</p>
<p>&#8220;Posso contá-la. És uma trovadora?&#8221;</p>
<p>&#8220;Não, chamo-me Europa e sou feiticeira. Historias como a tua interessam-me.&#8221;</p>
<p>&#8220;Europa&#8230; és estrangeira não és? Nunca vi ninguém com um nome como esse.&#8221;</p>
<p>&#8220;Sim, sou de muito longe daqui.&#8221;</p>
<p>Então Shadi sentou-se comigo no jardim do seu palácio e, no calor da tardinha, debaixo da sombra da palmeira, começou a contar a história de como encontrou o Viajante.</p>
<p>A rapariga acompanhava a caravana do pai que se dirigia a Ecbatana, a capital da Média. Nesta altura, o rei Nabonido da Babilónia tinha uma frágil aliança com Ciro de Ansham, um regente Persa. Nabonido era muitas vezes acusado de ser negligente quanto aos assuntos do Império e até pôs o filho Beltssazar a governar a capital babilónica, mas o que é certo é que a aliança com a Média abriu uma grande possibilidade para negócios. Depois de passar um sem número de campos de cultivo, a paisagem torna-se desértica. O caminho menos desértico é a Rota da Seda, onde se podiam ver, de tempos a tempos, alguns mercadores viajantes. Enquanto Shadi se sentava de lado num dos camelos, tocava a lira que o pai lhe tinha trazido do Egipto e assim, ia espantando o calor.</p>
<p>Certo dia, pararam num abençoado oásis com duas palmeiras e um lago. Exactamente como nas pinturas de parede. Os arbustos verdejantes cobriam uma grande extensão à volta do lago. O céu nocturno estava limpo e uma gaze fina estendia-se e distribuía incontáveis estrelas pelo firmamento. Também havia outros mercadores no oásis: um casal de chineses, três gregos desconfiados e um pequeno grupo de astrólogos persas que olhavam para um mapa e apontavam para o céu. Estavam todos confortavelmente distribuídos e nunca se misturavam. Enquanto os dois escravos hebreus preparavam o acampamento e uma fogueira, Shadi aproximou-se do lago para lavar a cara e os braços, pois estavam cobertos de areia fina.</p>
<p>A jovem acádia reparou então numa silhueta do outro lado do lago. Esta também se agachava para beber água, e fazia-o ruidosamente. Subitamente a cabeça levantou-se e Shadi observou que a silhueta possuía uns olhos muito estranhos. Depois de ganhar conforto à escuridão, reparou que a silhueta era de facto um animal: um leopardo negro. Como se não bastasse a surpresa de ver tal animal naquele lugar, o bicho sacou de um truque ainda mais impressionante, pois esfumou-se diante dos olhos da rapariga. Ela piscou os olhos várias vezes para tentar compreender o que tinha acontecido, mas de facto o animal tornou-se por momentos numa coluna de fumo etéreo e desapareceu sem deixar rasto.</p>
<p>&#8220;Essa foi a primeira vez que o viste?&#8221;</p>
<p>&#8220;Sim. Mas ainda não tinha a certeza do que tinha visto.&#8221;</p>
<p>Ignorando o animal, Shadi continuou a viagem no dia seguinte, mas aconteceu uma tragédia. A caravana foi atacada na estrada por um bando de ladrões. No ataque, eles tiraram à jovem o único elemento da família que ela conhecia. Os escravos debateram-se com audácia, mas não foi o suficiente para impedir o golpe mortal no chefe de família. Em consequência do incidente, Shadi abortou a viagem e voltou para trás. Muito dinheiro e bens foram roubados, deixando Shadi com problemas financeiros. Na viagem de volta, chorosa e de coração partido, ela voltou a ver a criatura no oásis.</p>
<p>A curiosidade tomou conta dos seus pensamentos e fê-la enxaguar as lágrimas. Separou-se do seu acampamento e contornou o lago para se aproximar da besta negra. Pela descrição dela, posso assegurar que o que ela viu foi um leopardo de pigmentação negra, geralmente chamado de pantera negra. Não é de todo inacreditável a presença dum leopardo por aqui, no entanto não deixa de ser um acontecimento raro e improvável. Assim que a pantera se apercebeu da presença de Shadi escondida nos arbustos, rosnou-lhe e preparou-se para combater.</p>
<p>&#8220;Afasta-te demónio de pé!&#8221; Disse a pantera com uma voz profunda e limpa.</p>
<p>&#8220;Não te quero fazer mal&#8230;&#8221; Respondeu Shadi.</p>
<p>&#8220;Não confio em humanos. Fui morto por um caçador. Vós não tendes respeito, por isso, não merecem o meu respeito.&#8221;</p>
<p>Assim que acabou de falar, a pantera lançou-se sobre Shadi e atirou-a ao chão. Ela debateu-se com os dois braços e agarrando as mandíbulas da besta, manteve a bocarra longe do seu pescoço. Os caninos longos brilhavam ao luar e estavam prontos a executar uma vingança cega.</p>
<p>&#8220;Nem todos os humanos são iguais! Eu tenho respeito por ti.&#8221;</p>
<p>A pantera afastou-se para o lado com um salto.</p>
<p>&#8220;Desculpa. Apenas tenho sede de vingança. Já matei alguns humanos, mas nenhum deles era o meu caçador, pois esse carregava um arco prateado.&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu também tenho sede de vingança.&#8221; Respondeu Shadi. &#8220;O meu pai morreu às mãos de uns vadios e agora não possuo qualquer meio de sustento. As minhas poupanças não durarão mais que um mês.&#8221;</p>
<p>&#8220;Não posso fazer nada quanto ao teu problema, nem posso dizer que sinto compaixão, pois não me resta nenhuma.&#8221;</p>
<p>&#8220;Qual o teu nome? És um enviado de Ishtar?&#8221;</p>
<p>Ainda enquanto a rapariga fazia as perguntas, o pelo do animal começou a fumegar com um vapor espesso e negro. Rapidamente todo o corpo do Viajante se transformou em fumo e depois em nada. Uma fragrância forte a incenso ficou por mais alguns momentos, mas também essa acabou por desaparecer e não foi deixado qualquer rasto ou sinal do Viajante. Shadi imaginou que a fabulosa criatura era um enviado de Ishtar, para lhe dar um sinal quanto ao que havia de fazer em face da morte do pai.</p>
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		<title>1.01 &#8211; A Rainha dos Céus e da Terra</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Feb 2009 22:19:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>xeoncat</dc:creator>
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		<category><![CDATA[babilonia]]></category>
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		<description><![CDATA[Quando cheguei há dois meses à maior cidade deste mundo, não pensei que estivesse tão avançada em relação ao resto do planeta. A história que vou contar passou-se durante a minha estadia na cidade de Babilónia, capital do Império Babilónico. Governava Nabonido, quando entrei por um dos portões da fortificação exterior da parte nova da cidade. Obviamente, entrei vestida de linho, não ia querer atrair a atenção destas pessoas com tecidos sintéticos.<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=contospm.wordpress.com&blog=645425&post=162&subd=contospm&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Quando cheguei há dois meses à maior cidade deste mundo, não pensei que estivesse tão avançada em relação ao resto do planeta. A história que vou contar passou-se durante a minha estadia na cidade de Babilónia, capital do Império Babilónico. Governava Nabonido, quando entrei por um dos portões da fortificação exterior da parte nova da cidade. Obviamente, entrei vestida de linho, não ia querer atrair a atenção destas pessoas com tecidos sintéticos. Andei cerca de quilómetro e meio pelo meio de ruas largas e entrei num dos portões da fortificação interior. Aí, a cidade tornou-se claustrofóbica, com ruas estreitas e sinuosas. Os blocos residenciais, apesar de baixos, ameaçavam cair por cima das pessoas, mas após atravessar um pequeno mercado onde se vendia desde fruta a escravos, dei com a Via Processional.</p>
<p>A Via Processional era o que se podia chamar de uma avenida, e era larga o suficiente para eu poder ver o rio Eufrates lá à frente. A Via cortava a cidade nova ao meio e depois atravessava o rio em direcção à cidade velha. Nessa parte, podia observar-se o proeminente <em>ziggurat</em> Esagila, erigido ao deus padroeiro da cidade: Marduk. E mesmo por trás deste, ficava o titânico <em>Etemenenki</em>, um edifício de nove andares. Era o edifício mais altos do mundo, do qual ninguém se lembrava da data da primeira construção. Sofreu bastante com sucessivas invasões e guerras e está em permanente reconstrução desde o reinado de Nabucodonosor II.</p>
<p>Quando atravessei a ponte para a parte velha, apreciei dois pilares erigidos a Ea e a Dumkina, que pareciam guardar este lado da cidade. Contra as minhas expectativas, a cidade velha parecia mais viva do que a parte nova. Mais pessoas, edifícios mais bonitos, e também luxuosos palácios revestidos a tijolo vidrado. Passei por um segmento da Via Processional onde decorria uma feira maior do que a que já tinha visto na cidade nova. As vestimentas dos transeuntes eram variadas, mas a maioria usava túnicas feitas de linho ou lã. Aparentemente, os Persas ainda não trouxeram a moda das calças para aqui. Todos olhavam para mim como uma estrangeira. Apesar de eu estar vestida de acordo com os costumes locais e da cidade ter cerca de cem mil habitantes, todos reparavam em mim, não sei porque razão.</p>
<p>Depois segui por uma ruela estreita e passei por uma praça onde ficava o templo de Ishtar e Anu. Em frente deste edifício, podia ver-se uma estátua argilosa de Ishtar montada num leão. A face e a estatura da deusa tinha algumas semelhanças comigo, penso que por isso é que os transeuntes reparavam. Em volta da estátua estavam parados vários sacerdotes e sacerdotisas. Algumas das sacerdotisas deste templo deviam ser as únicas prostitutas da cidade com um véu. Este facto, indica que estas mulheres tinham um certo <em>status</em> social especial, o véu está reservado a mulheres não escravas ou casadas. As sacerdotisas pertenciam a Ishtar, enquanto que os sacerdotes pertenciam a Anu, e eram todos tratados como se fossem os escravos sexuais ou intermediários dos deuses. Quem procurava os serviços deles, tinha de pagar bem.</p>
<p>Passado o templo dos prazeres nada ocultos, subi umas escadas poeirentas e dei com o palácio onde eu ia ficar instalada. As paredes do palácio de dois andares, estavam revestidas de tijolos vidrados de azul e havia uma palmeira que se elevava dos jardins centrais. Entrei no pátio e vi um escravo a apanhar um belo banho de sol, sentado no chão, perto da estátua duma serpente. Devia ter sido comprado nos reinos mais nortenhos, pois não possuía a mesma pigmentação escura tão comum por estas bandas. O calor era imenso e ele suava abundantemente, mas pareceu suar ainda mais quando viu que eu tinha um cabelo tão comprido. Devia tê-lo cortado ou apanhado para não dar tanto nas vistas. O homem levantou-se e levou-me então ao interior do palácio e disse que eu podia esperar no jardim. Do átrio, decorado com tapeçarias, podia ver-se os jardins no centro do palácio, pois os únicos obstáculos eram umas colunas cilíndricas de alabastro. Sentei-me num banco granítico, rodeado de arbustos e flores. Este era precisamente o ambiente que toda a gente gostaria de ter dentro de casa. Para o jardim estavam voltadas as janelas do segundo andar e pude observar com um sorriso, cortinas de seda.</p>
<p>Na realidade eu já estive aqui em Babilónia há alguns milhares de anos. Depois saí e voltei há trezentos anos, então nas mãos dos Assírios, mas tive de sair. Pois como sabem, isto é o que se pode chamar de zona de impacto. A guerra nunca deixou este lugar e pelo que me parece, nunca deixará até que qualquer traço da presença de civilização humana desapareça. Mas tive de voltar por causa duma história de que ouvi falar.</p>
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